3 de mai de 2016

Diário de filmes do mês: Abril/2016

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

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American Ultra: Armados e Alucinados (American Ultra, EUA/Suiça, 2015)
Direção: Nima Nourizadeh
Roteiro: Max Landis
Elenco: Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Topher Grace, Connie Britton, Walton Goggins, John Leguizamo, Bill Pullman, Tony Hale
96 minutos

O grande pecado de American Ultra é prometer muito mais diversão do que entrega. A história acompanha Mike Howell (Jesse Eisenberg), o caixa de um mercadinho em uma cidade pequena, que tem ataques de pânico todas as vezes que tenta sair dos limites do município com a namorada, Phoebe (Kristen Stewart). Um belo dia, uma mulher misteriosa (Connie Britton) aparece e diz um monte de palavras sem sentido para Mike, e de repente uma programação escondida no fundo de sua mente é acionada, e ele se revela um agente treinado e perigoso. A trama por trás de tudo isso é um pouco mais do mesmo, com um jovem executivo (Topher Grace) tomando a posição na CIA que anteriormente pertencia a Britton e deixando o poder subir a sua cabeça, realizando operações sem a autorização de seus superiores. O mais interessante é o efeito cômico de ver Eisenberg e Stewart, tradicionalmente acostumados a papeis mais no perfil indie, se divertindo como uma dupla de maconheiros que esconde um lado badass. O roteiro de Max Landis (Poder Sem Limites) tenta explorar isso em algumas cenas de ação, e trabalhando no desenvolvimento da relação dos dois, mas falta faro cômico e conhecimento de gênero para American Ultra emplacar como a comédia de ação que poderia ser.

Ao mesmo tempo, falta ao diretor Nima Nourizadeh (Projeto X) a habilidade para comandar as cenas de adrenalina – uma luta em especial, dentro de uma sala iluminada com luzes negras, poderia render muito mais nas mãos de um diretor (e um fotógrafo) mais habilidoso e com mais senso de estética e ritmo. Dito tudo isso, American Ultra não é uma ofensa em forma de filme. São rápidos 96 minutos que podem desaparecer rapidamente da cabeça do espectador assim que os créditos sobem, mas funcionam como entretenimento e como oportunidade de ver a química entre esses dois ótimos atores da nova geração. Stewart (26) e Eisenberg (32) estarão juntos de novo esse ano, sob a direção de Woody Allen, em Café Society, e se os admiráveis esforços dos dois em American Ultra são alguma medida, o par vai funcionar as mil maravilhas.

✰✰✰ (3/5)

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Tumbledown (EUA/Canadá, 2015)
Direção: Sean Mewshaw
Roteiro: Desiree Van Til
Elenco: Rebecca Hall, Jason Sudeikis, Joe Manganiello, Dianna Agron, Brythe Danner
105 minutos

Pequenos dramas indie como Tumbledown frequentemente tem muito mais a oferecer do que alguns espectadores reconhecem. Embora a fórmula e o estilo de muitos desses filmes sejam repetitivos, seus roteiros muitas vezes guardam pequenas pérolas de insight. Em Tumbledown, além de um par de atuações para lá de convincentes dos dois protagonistas, que desenham um romance adorável e satisfatório, o script da estreante Desiree Van Til carrega realizações inteligentes sobre arte, nossa idealização da vida e da mentalidade dos artistas que amamos, a forma como nos apropriamos da expressão deles para refletir obsessões e identificações nossas, sem levar em conta que não conhecemos de fato quem são esses seres humanos. A história de Hannah (Rebecca Hall), a viúva de um cantor de folk que adquiriu status de cult após sua morte, se entrelaça com a do professor e escritor Andrew (Jason Sudeikis), que pretende usar a história do marido da moça como a pedra fundadora em um livro sobre artistas que morreram cedo. A resistência de Hannah, que passa por um longo período de luto, cede quando ela percebe que Andrew pode ajudá-la a terminar a biografia do marido, na qual ela trabalha como uma forma de tentar conseguir um senso de “conclusão”. Os mecanismos sinceros e compreensivos do roteiro de Van Til não deixam que essa seja a história de uma mulher que precisa de outro homem para ajudá-la a esquecer o marido morto – ao contrário, é a história do encontro de duas pessoas que se ajudam mutuamente, conforme a convivência com Hannah faz Andrew realizar sua atitude condescendente à vida e à humanidade do artista que admira.

Sempre excelente, Rebecca Hall entrega uma atuação que traduz conceitos discrepantes de luto, amor, arrependimento, culpa e estagnação na expressão coesa de uma mulher que podemos facilmente acreditar ser real. Os que passaram pela perda de alguém próximo de si vão reconhecer-se em vários momentos da performance da britânica, uma das melhores (e mais subestimadas) atrizes em atividade no momento. Equilibrando-se frente a essa companheira de cena formidável, Sudeikis aparece meio apagado, mas seu charme natural e sua composição firme de um personagem que foge um pouco dos que ele geralmente interpreta ganham o espectador sem muito esforço. No fim de seus 105 minutos, Tumbledown não é um romance surpreendente ou subversivo, mas não precisa ser – seu humor muito naturalista funciona à perfeição, sua história envolve, emociona e faz pensar. É um filme que vale a pena ser visto pelo que é, não pelo que aspira a ser, e essa pode ser uma mudança bem-vinda na rotina de espetáculos ambiciosos de Hollywood.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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Você é o Próximo (You’re Next, EUA/Inglaterra, 2011)
Direção: Adam Wingard
Roteiro: Simon Barrett
Elenco: Sharni Vinson, Nicholas Tucci, Wendy Glenn, AJ Bowen, Joe Swanberg, Amy Seimetz, Ti West, Rob Moran, Barbara Crampton
95 minutos

Outro da nova geração de filmes de terror amados pela crítica e pelo público, Você é o Próximo é único pela mistura e brincadeira de gêneros que propõe. Uma história paranoica de invasão à domicílio com um acompanhamento de slasher film (aqueles terrores baseados em assassinos em série, sobrenaturais ou não), mas a alma de uma comédia de humor negro indie sobre uma família disfuncional, o filme do diretor Adam Wingard é exageradamente divertido (e eventualmente engraçado) ao mesmo tempo em que mantem a tensão nas alturas durante a metragem de 95 minutos. O equilíbrio do tom é arquivado largamente através de um exercício de contenção – Wingard e o roteirista Simon Barrett mantem o subtexto satírico e as referências aos filmes clássicos por baixo da narrativa, telegrafada para o espectador de forma prática enquanto a câmera do diretor de fotografia Andrew Droz Palermo adiciona truques e rebuscamentos visuais, especialmente em cenas chaves da metade para o final do filme. A história acompanha uma família que se junta pela primeira vez em muito tempo assim que os pais (Rob Moran e Barbara Crampton) se mudam para uma casa afastada – logo todos os membros da reunião, incluindo os agregados, começam a ser aterrorizados por um grupo de assassinos mascarados cujo propósito é a principal revelação do filme (é genuinamente surpreendente, porque o filme nos despista com suas referências e colocações tonais).

Parte da diversão de Você é o Próximo é o quanto o elenco parece estar comprometido com a brincadeira. Sharni Vinson, que merecia ter se tornado uma estrela depois do trabalho aqui, se concentra em vender sua personagem com tanta força que é impossível não torcer por ela – Erin, a namorada de um dos filhos da família e protagonista da trama, aos poucos de mostra uma heroína badass em meio a um monte de personagens cheios de falhas e hipocrisias. Joe Swanberg, conhecido como o diretor de dramédias indie como Um Novo Começo e Um Brinde à Amizade, está particularmente bem como o irmão mais velho que insiste em se mostrar superior aos outros membros da família. Não é que Você é o Próximo subverta a moralidade a ponto de que a possibilidade de vê-lo morrer em algum momento da trama seja prazerosa, mas há um cerne cruel e sarcástico na violência do filme, nas suas elaborações emocionais, e no seu final.  E o mais interessante é que, mesmo se tudo isso falhar com você, Você é o Próximo ainda é uma hora e meia muito bem gasta com um pedaço de entretenimento bem realizado.

✰✰✰✰ (4/5)

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Sr. Ninguém (Mr. Nobody, Bélgica/Alemanha/Canadá/França, 2009)
Direção e roteiro: Jacon Van Dormael
Elenco: Jared Leto, Sarah Polley, Diane Kruger, Lin Dan Pham, Rhys Ifans, Natasha Little, Toby Regbo, Juno Temple
141 minutos

Há alguns filmes que espelham um pouco do que Sr. Ninguém é e significa, mas não há nenhum que seja exatamente igual a ele. Há algo de Charlie Kaufman, famoso por Quero Ser John Malkovich e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, no surrealismo contido da trama, na sua estrutura pouco convencional, em seus acenos para a realidade (e as realidades) que representa. Há algo de Wes Anderson e Jean Pierre Jeunet, os diretores de O Grande Hotel Budapeste e O Fabulo Destino de Amélie Poulain, na composição visual e na forma como o filme integra o onírico e o sobrenatural em um mundo que é fundamentalmente realista. E há algo de Boyhood, de Richard Linklater, na reflexão que Sr. Ninguém nos faz fazer, de sua própria forma típica da ficção científica. A mistura de todas essas coisas é adicionada a visão única do diretor e roteirista belga Jaco Van Dormael, que conta a história de Nemo Nobody (Thomas Byrne, Toby Regbo e Jared Leto, em diferentes fases do personagem), um garoto de 9 anos cuja separação dos pais e decisões que surgem dessa separação criam uma infinidade de universos alternativos em que o garoto tem diferentes amores, destinos e mortes. De certa forma, Sr. Ninguém é uma carta de amor a essas possibilidades, um filme que prende a respiração e segura firme em todas as opções de narrativa que vê diante de si, e portanto em todas as escolhas que o seu protagonista tem que fazer. Um poema à beleza do momento em que o trapezista está suspenso no ar, entre dois pontos de apoio, o filme de Dormael nunca se cansa de surpreender o espectador, e cede a cada capricho de seu diretor/autor sem medo algum do abandono.

Jared Leto está brilhante como as várias encarnações adultas do personagem, e ainda melhor como a versão envelhecida de Nemo – cheia de maneirismos, seu retrato do protagonista frente a um futuro espantoso se encaixa perfeitamente às ambições e ao clima do filme, enquanto seu Nemo adulto representa uma pletora de decepções e sensibilidades que refletem no quão complicada a vida pode se tornar, independente de qual caminho escolhermos. Como o personagem diz em certo momento do filme: “Todo caminho é o caminho certo. Tudo que há poderia ter sido qualquer outra coisa, e teria tanto significado quanto tem agora”. Com uma filosofia que consegue ser niilista e mágica ao mesmo tempo, Sr. Ninguém quer nos pintar como peões do destino e das escolhas que fazemos simplesmente por sermos quem somos, e acha extraordinária tristeza, determinismo e beleza dentro desse conceito. É uma história fantástica para as nossas consciências, e não quer que nos desprendamos dela, mas que deixemos ela se expandir para aceitar um conceito de incerteza que é tão real quanto a carne e os ossos do nosso corpo.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Jogo de Cena (Brasil, 2007)
Direção: Eduardo Coutinho
Elenco: Marília Pêra, Andrea Beltrão, Fernanda Torres
100 minutos

Em certo ponto de Jogo de Cena, o simples, extraordinariamente comovente e magistral documentário do mestre Eduardo Coutinho, uma das entrevistadas que compõem os 100 minutos de filme termina sua história, olha diretamente para a câmera, e diz: “e foi isso que ela disse”. Embora o jogo tenha começado algum tempo atrás, é nesse momento que Jogo de Cena pega o espectador pela boca do estômago, aplicando um choque que nos faz ver e rever o que estamos assistindo. E essa não é nem a metade do que Coutinho arquivou com um único cenário, um anúncio no jornal e a ajuda de algumas maravilhosas atrizes. A honestidade crua de Jogo de Cena se contrapõe ao seu jogo de enganação do tempo todo – é como se Coutinho, através dessas histórias contadas (em verdade ou em mentira), queira nos dizer que a narrativa e como a recebemos é sempre mais importante do que a autenticidade dela. Enquanto nos mostra histórias intensamente humanas de perda, amor e auto-conhecimento, todas elas contadas nas vozes de mulheres que viveram o que dizem ou que buscam em si a forma de expressar aquilo que outras disseram, Coutinho questiona a nossa concepção de verdade, a nossa construção de ficção e realidade, o próprio conceito de personagem e performance. Em Jogo de Cena, tudo é performance – numa teia de fingimentos e honestidades, o que fica é a identificação que o espectador sente com cada uma das mulheres em frente à câmera.

Um documentário que não foge da complexidade e do caráter esquivo do seu tema de suas reflexões, Jogo de Cena ainda mostra algumas das melhores performances de um trio de atrizes tão extraordinário que lida com o borrar da linhas entre realidade e ficção de forma espetacular: Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Marília Pêra arquivam seus momentos em diferentes pontos do filme, e o permeiam como se fossem guias da nossa atenção ao redor dele. Torres faz trabalho especialmente superlativo com a ambiguidade das palavras e das histórias do filme, escondendo no fundo dos olhos, por trás de um sorriso fácil que tem o cuidado de parecer ensaiado e genuíno ao mesmo tempo, uma dúvida e uma semente de performance calculada. A impressão é que ninguém entende o filme exatamente como ela, nem mesmo o espectador – e é nesse mistério que mora o grande trunfo de Jogo de Cena, um documentário que, bem ao gosto do diretor, levanta mais perguntas do que trás respostas. Acima de tudo, porém, uma experiência cinematográfica (e de vida) essencial.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Special Correspondents (Inglaterra/Canadá/EUA, 2016)
Direção e roteiro: Ricky Gervais
Elenco: Ricky Gervais, Eric Bana, Vera Farmiga, America Ferrera, Raúl Castillo, Kelly Macdonald, Benjamin Bratt, Kevin Pollak
100 minutos

Excessos a parte, Ricky Gervais pode ser genial com o seu estilo sem papas na língua quando quer. Mais do que frequentemente, o que sai da boca do comediante britânico são críticas mordazes e ácidas a costumes e determinados comportamentos sociais – e na maioria dos temas, Ricky nos faz rir de quem merece ser motivo de chacota. Em Special Correspondents, os melhores momentos vem quando esse lado do comediante, aqui trabalhando em dose tripla como diretor, roteirista e astro, é libertado pelo sarcasmo que Gervais dirige à cobertura sensacionalista da mídia, ao caráter vazio de muitas reportagens “de interesse humano” que saem de coberturas de guerras e grandes acontecimentos, da busca superficial por fama e reconhecimento suplantando a nossa conexão e empatia pelo outro. Alguns momentos-chave mostram essa inteligência por trás do humor de Special Correspondents, e nesses momentos o filme se torna um divertido passeio pela mente de um comediante genial, com performances espertas de Gervais, Vera Farmiga (espetacular como a esposa falsária do protagonista) e da dupla America Ferrera e Raúl Castillo.

Em outros momentos, no entanto, o que vemos é uma comédia sem os espinhos que Gervais geralmente traz para os seus roteiros, se contentando em padrões fáceis de reproduzir, especialmente na oposição yin-yang, nerd-e-galã, dos protagonistas. O britânico interpreta um técnico de rádio cujo parceiro repórter (Eric Bana) é mais um picareta do que um profissional sério – quando os dois são mandados para o Equador cobrir uma guerra civil, Gervais acidentalmente perde as passagens e passaportes, e ele e Bana resolvem tapear a sua estação de rádio, se abrigando com um casal de latinos amigos e fazendo suas reportagens com base em efeitos sonoros e histórias inventadas. Para uma história com tanto potencial de sátira, e em uma plataforma aparentemente tão permissiva, Special Correspondents é notavelmente preguiçoso, assim como a performance de Bana no papel do segundo protagonista, e a direção sem novidades de Gervais por trás das câmeras. Uma pena.

✰✰✰ (2,5/5)

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