8 de jun de 2016

Review: “A Bruxa” acha oportunidades gloriosas em uma história de simplicidade ímpar

the vvitch

por Caio Coletti

Em torno de seis meses atrás, falei aqui n’O Anagrama de Corrente do Mal (leia aqui), um dos títulos mais absolutamente impressionantes de um cinema de terror independente que está em franco e espetacular crescimento. Pelas mãos de diretores jovens e frequentemente estreantes, o gênero vem sendo renovado e recolocado como um instrumento valioso para contar histórias das mais variadas e analisar medos primordiais ao invés de medos específicos ou simplesmente aversão à violência explícita. A pedida de 2016 nesse movimento disperso, mas muito real, é A Bruxa, um pequeno drama colonial americano que ganha tintas de terror através da reimaginação de contos folclóricos, e da exploração de um elemento decisivo da época em que o filme se passa: a religiosidade fervorosa e marcantemente ditada pela culpa e paranoia em relação ao pecado, e à salvação ou danação eterna.

Em um mundo que se orienta em termos essencialmente místicos e irreais, A Bruxa constrói uma tensão muito concreta ao olhar para seus personagens com honestidade e mostrar suas psiques conforme foram moldadas pelo tempo e pelo ambiente em que vivem. De forma muito inteligente, o diretor/roteirista Robert Eggers constrói personagens de uma família atormentados por dúvidas sobre seu próprio destino, sua própria bondade e valor – o pai, William (Ralph Ineson) foi expulso do vilarejo onde a família morava ao discordar dos princípios religiosos aplicados lá, mas pode ter assinado o atestado de óbito de todos no processo, já que agora vivem na miséria; a mãe, Katherine (Kate Dickie), vive em luto pelo filho mais novo que perdeu, sumido na floresta em um momento de distração de sua filha mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy), que se considera culpada pelo acontecido tanto quanto a mãe; já o filho mais velho, Caleb (Karvey Scrimshaw), luta com os primeiros sinais da puberdade tendo apenas a irmã como referência de objeto de desejo – o que, é claro, não é nada saudável.

Dizer mais que isso seria estragar os pequenos prazeres (se é que podem ser chamados assim) da narrativa de A Bruxa, um filme em que nada e tudo acontecem ao mesmo tempo. Desenhado discretamente em uma estrutura dramática muito sólida, o roteiro de Eggers deixa o espectador com os nervos à flor da pele mesmo com o ritmo lento da trama. Os que sacarem as entrelinhas e os subtextos dos diálogos, a forma como a culpa católica mudou e fragmentou esses personagens, com seus princípios de pecado original e a certeza da essencial maldade dos seres humanos, vão se ver mais entretidos do que o normal, e mais investidos nos destinos de cada um dos personagens, o que só torna as últimas viradas de trama mais eficientes.

A reconstituição de época é impecável, com o figurino de Linda Muir (Bitten) brilhando em sua fidelidade e simplicidade enquanto a trilha-sonora de Mark Korven (Cubo) enche os ouvidos do espectador com barulhos sugestivos e crescendos de violino inesperados. Jarin Blaschke (I Believe in Unicorns) completa a excelência técnica com uma fotografia que se encanta com a natureza seca ao redor da pequena fazenda da família, mas parece igualmente à vontade em espaços mal-iluminados, filmando espectros e aparições, imagens vistas por frestas nas portas, janelas, cortinas e árvores, mesmo quando nada de imediatamente sobrenatural está acontecendo em tela. Nas mãos desses profissionais, Eggers dirige com leveza, trazendo gravidade e emoção para uma história que depende dela até para assustar, e tirando de seus atores (especialmente a excepcional Anya Taylor-Joy) performances ultra-sensíveis e eficientes.

Com uma superfície simples e sutil, mas reflexões e paralelos modernos profundos para fazer, A Bruxa é um filme assombroso em mais do que um sentido – seu final perturbador fica com quem o assiste por um tempo, uma sentença de morte e maldade ainda mais aterrorizante que a filosofia fatalista de seus personagens. Se a grande marca do novo cinema de terror é a criação de monstros que não podemos derrotar, A Bruxa é um clássico da nossa época, porque não só nos diz que não somos capazes de vencer o mal que se aproxima, como mostra as consequências nefastas de uma sociedade e uma mentalidade que nos levam a abraçá-lo.

✰✰✰✰✰ (5/5)

the vvitch 2

A Bruxa (The VVitch: A New-England Folktale, EUA/Inglaterra/Canadá/Brasil, 2015)
Direção e roteiro: Robert Eggers
Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson
92 minutos

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