14 de jun de 2016

Review: Esqueça Game of Thrones; The Americans é a melhor e mais adulta série no ar atualmente

the americans

por Caio Coletti

O meu gosto por The Americans não é novidade nenhuma para quem quer que tenha acompanhado O Anagrama de 2013 pra cá. A série da FX conquistou meu coração de seriador na primeira temporada, quando era uma estreia em que ninguém estava prestando muita atenção, mas pela qual eu me senti atraído graças à ambientação nos anos 80, em meio à Guerra Fria. Eu sabia que The Americans tinha o potencial para ser uma fascinante aula de história, e eu não poderia estar mais errado. Conforme chegamos ao quarto ano, fica claro que The Americans não tem interesse algum em ser uma aula de história – quer refletir atualidades e atemporalidades muito mais do que pretende destrinchar os labirintos dos anos 80 ou da Guerra Fria, e quer afirmar sua urgência nessa atualidade. É fácil dizer que The Americans é excelente no que faz, porque ela é, mas é um pouco mais ousado declarar que ela é o drama mais adulto, mais complexo e mais importante no ar na TV americana atualmente.

Na nossa era de absoluta abundância televisiva, o que faz de The Americans uma série digna desses títulos? Se essa quarta temporada é prova de alguma coisa, é que a série de Joe Weisberg e Joel Fields só ficou melhor com o tempo, e nunca teve medo de ficar melhor dentro de seus próprios termos. De forma semelhante à Hannibal, The Americans cresceu para estabelecer um formato que explora o potencial de sua história e de seus personagens da forma mais completa possível. É um formato que exige cada vez mais paciência do espectador, desacelerando a trama e concentrando-se na densidade de seus significados, cozinhando “em fogo baixo” uma tensão que permeia a série e que a estrutura como um longo jogo de gato e rato. Não há resoluções fáceis nem rápidas em The Americans – as situações se arrastam e se ramificam, tomando proporções não previstas. Weisberg e Fields estão jogando para ganhar lá no final da série (que, segundo notícias, deve acontecer na sexta temporada), e não cedem em nenhum momento ao impulso da satisfação imediata.

Nesse quarto ano, Phillip (Matthew Rhys) e Elizabeth Jennings (Keri Russell) precisam lidar com as consequências da confissão de Paige (Holly Taylor) ao Pastor Tim (Kelly AuCoin), que agora sabe da aliança dos pais da menina à União Soviética. Enquanto isso, um novo informante ligado a área de guerra biológica, William (Dylan Baker). surge para complicar as coisas e trazer ameaças mortais para os Jennings, e a trama envolvendo Martha (Alison Wright) começa a chegar a sua potencialmente devastadora conclusão. A forma como as coisas se desenvolvem no episódio final, “Persona Non Grata” (4x13), é um testamento da coragem de The Americans em ser moralmente ambígua, da clareza de sua visão dos personagens e da trama, e de seu comprometimento com uma narrativa essencialmente adulta, que não nos dá situações mastigadas e fáceis de digerir. O mundo de The Americans é caótico, e nem sempre certo e errado estão exatamente claros no campo de batalha silencioso de nossos personagens – não é fácil de assistir, mas é genial e tremendamente honesto com a nossa realidade.

Eu não sou o único que não entende muito bem a ausência de The Americans nos Primetime Emmys todos os anos. A crítica americana tem feito campanha para as indicações acontecerem há tanto tempo quanto a série está no ar, e muita gente acha que esse ano será o momento certo para a série da FX finalmente entrar na roda da premiação mais prestigiada da TV. The Americans não é só magistralmente escrita, por todos os motivos que falei acima, como brilhantemente dirigida, com uma equipe que sabe o momento de realçar detalhes e o momento de incluir seus personagens no meio, que entende a obsessão da série pelos detalhes dos procedimentos de espionagem dos protagonistas e os dirige com o olhar metafórico (mas nunca lúdico, sempre de certa forma frio) que eles precisam. É também espetacularmente atuada, tanto pelo trabalho conjunto de um elenco harmonioso quanto pelo absoluto destaque da dupla de protagonistas.

Na pele de Elizabeth, escondendo uma gravidez por toda a temporada, Keri Russell mostra mais uma vez porque é dona da melhor atuação feminina em uma TV americana inundada de atrizes espetaculares. Sua excelência mora na sutileza e nos detalhes tanto quanto no quadro maior que pinta sobre sua personagem – há sempre algo de contínuo e algo de novo em Elizabeth, de uma forma natural que nos faça ver sua evolução sem perder a essência da personagem. Russell brilha em grandes momentos emocionais, vibra em tela com a intensidade dos impulsos contidos dentro de Elizabeth, e dá rachaduras ao casco duro de uma mulher que é tão humana e falha quanto é inquebrável e admirável. É um testamento ao talento de Matthew Rhys que seu Philip não pareça apagado ao lado dela, mas o ator encontra formas geniais de expressar as crises existenciais e a intensa dúvida e medo que perpassa o espião soviético – com um olhar que se tornou mais implacável e amargo com cada temporada, Rhys, como The Americans, só sabe ficar melhor.

O elenco coadjuvante encontra espaços para bilhar, especialmente Annet Mahendru (Nina), que faz proveito de seus últimos e tocantes momentos na série; Frank Langella (Gabriel), uma presença formidável que traz dureza e compreensão para um personagem fundamental; Alison Wright (Martha), uma bomba de emoções à flor da pele que foi presenteada com um arco de personagem espetacularmente desenhado pelos roteiristas; e Costa Ronin (Oleg), que é explorado com mais profundidade nesse ano e não deixa nem um pouco a desejar na atuação. A constituição de época, conforme os anos foram avançando, ganhou um nível de requinte que permite à série fazer um monte de referências claras a pedaços culturais da década (inclusive em títulos de episódios) sem parecer uma decisão forçada para nos localizar temporalmente. A trilha-sonora minimalista de Nathan Barr nunca esteve melhor, e o departamento de figurino e fotografia fazem um trabalho tão discreto e genial em esconder a gravidez de Keri que a série nunca parece estar realmente se esforçando para isso.

Em 13 episódios, o quarto ano de The Americans é uma evidência óbvia de que não é necessário uma narrativa ser novelesca para ser tensa e dramática – nossa familiaridade com os personagens e situações ajuda, uma vez que estamos a bordo dessa história há quase meia década, mas é a profundidade do trabalho que nos faz esquecer, ou melhor, apreciar, que esta é uma narrativa que avança devagar, como um fluído viscoso se espalhando pelo chão onde foi derramado. Uma história sobre os cantos mais obscuros da vida adulta, sobre as curvas mais inusitadas do amadurecimento e da realização de que não só “nada é tão simples quanto parecia”, como é muito mais complexo do que achamos ser. Essencialmente, The Americans usa uma guerra de tensões ocultas, ameaças e clandestinidades para nos lembrar de que se estregar a uma causa sem reservas é também perder um pouco da objetividade, e um pouco de si mesmo. A série da FX não advoga contra ou a favor disso, mas mantem os olhos argutos para encontrar a culpa, o arrependimento e a noção de inevitabilidade trágica dentro de cada um de seus personagens, não importa o lado ao qual estejam aliados. Aqui, o problema nunca é um vilão, uma maldade, um ideal equivocado – como na vida adulta que todos temos que enfrentar, o problema é todo mundo.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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The Americans – 4ª temporada (EUA, 2016)
Direção: Thomas Shlamme, Chris Long, Kevin Dowling, Stefan Schwatz, Noah Emmerich, Kari Scogland, Dan Attias, Matthew Rhys, Daniel Sackheim, Steph Green, Nicole Kassell
Roteiro: Joel Fields, Joe Weisberg, Stephen Schiff, Tracey Scott Wilson, Peter Ackerman, Joshua Brand, Tanya Barfield, Peter Ackerman
Elenco: Keri Russell, Matthew Rhys, Frank Langella, Alison Wright, Noah Emmerich, Holly Taylor, Keidrich Sellati, Lev Gorn, Costa Ronin, Danny Flaherty, Kelly AuCoin, Vera Cherny, Dylan Baker
13 episódios

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