6 de jun de 2016

Review: “X-Men: Apocalipse” é a culminação de 16 anos de altos e baixos para os mutantes

x-men apocalypse

por Caio Coletti

Existe na internet uma base de detratores muito vocal e enfática aos filmes da franquia X-Men, versão da Fox para os mutantes da Marvel. O diretor Bryan Singer, que com Apocalipse marca seu quarto filme em uma série que, por enquanto, acumulou seis títulos na marca principal (e três spin-off), é alvo de comentários maldosos e das acusações corriqueiras de incompetência e “estragar o legado” de uma série de personagens com os quais alguns fãs tem contato desde a infância. A maior parte das críticas, no entanto, tem muito a ver com detalhes das histórias ou direções nas quais alguns personagens são levados, e embora eu mesmo tenha algumas dessas reclamações para fazer sobre X-Men: Apocalipse, é mais importante para mim que o filme mantenha o espírito, a discussão temática e o significado de uma aventura dos X-Men. E nos últimos 16 anos, uma boa lição para se tirar da franquia é que, quando Bryan Singer está no comando, esses temas e significados aparecem com muito mais proeminência.

Sob essa ótica, Apocalipse é a apoteose dessa última década e meia de aventuras das equipes lideradas por Charles Xavier e Magneto. Aqui interpretados novamente por James McAvoy e Michael Fassbender, os dois mentores seguem sendo o centro da trama, mas dessa vez as ramificações e consequências dela se espalham para uma série de personagens que converge no final para revelar o filme como o conto da criação de uma equipe ou, olhando por um lado mais emocional, uma família de rejeitados absurdamente diversa se unindo sob uma orientação e um ideal em comum. Esse é, e sempre foi, o espírito de uma história dos X-Men – uma história essencialmente sobre o senso de comunidade tomando protagonismo em um momento em que a dificuldade de lidar com um mundo que nos rejeita é grande demais para carregar sozinho.

As imagens conjuradas por Bryan Singer são essenciais para que esse mesmo espírito seja traduzido em linguagem cinematográfica com competência. O diretor nova-iorquino é dono de um olho excepcional para metáforas visuais e enquadramentos significativos, montando o todo do filme através de uma familiaridade espetacular com o universo em que transita – ao mesmo tempo em que cria cenários e situações que são únicas a esse capítulo da franquia. A forma como Singer filma o vilão Apocalipse, com a ajuda do departamento de maquiagem e da direção de fotografia de Newton Thomas Sigel (Drive), mostra ao mesmo tempo a aspiração de grandeza do vilão e sua eventualmente patética natureza. Apocalipse é a falsa divindade que a figura messiânica representada por Charles precisa combater, e o clímax trabalha sombras e escala com habilidade excepcional. X-Men nunca foi, e ainda não é, uma metáfora cristã – mas em Apocalipse a franquia se torna também uma reflexão sobre nossas crenças, o que leva a elas, e para onde elas nos levam.

É uma extensão natural dos temas da série que o roteiro de Simon Kinberg, veterano da franquia, tira de letra. A chave aqui é perceber que Kinberg tem a ajuda de Michael Dougherty (Contos do Dia das Bruxas) e Dan Harris (Heróis Imaginários) na elaboração da história do filme, o que basicamente significa que, embora Kinberg tenha redigido a versão final, Dougherty e Harris foram os responsáveis por desenhar a trama e as implicações dela. A dupla em questão não aparecia na franquia dos mutantes desde o essencial X-Men 2 (2003), até hoje o melhor filme da série – é latente como o retorno de Dougherty e Harris se reflete no aprofundamento de determinados elementos. Há tempos não víamos em X-Men um diálogo consistente como o que acontece entre Charles e Mística/Raven (Jennifer Lawrence) no comecinho: “Só porque não há uma guerra não significa que há paz”. X-Men: Apocalipse é também sobre o preconceito que resta quando a sociedade finge se livrar das encarnações mais primárias e visíveis dele.

A trama já é mais ou menos de conhecimento geral: após milênios adormecido, o mutante todo-poderoso Apocalipse (Oscar Isaac) é renascido por alguns fanáticos religiosos, que o acreditam um Deus. Reunindo uma série de outros mutantes que se juntam a ele após rejeições e sofrimentos de diferentes espécies, Apocalipse planeja “recomeçar” o mundo a sua imagem e semelhança, após entrar em contato com a cultura atual e concluir que os seres humanos “estão no caminho errado”. Uma equipe jovem de mutantes sob a  tutela de Xavier e a liderança de Mística, que só quer salvar Magneto das garras ideológicas do vilão, se junta para combatê-lo, mas o poder de Apocalipse pode ser grande demais para eles. No front das cenas de ação, Apocalipse entrega exatamente o que promete em seu título: destruição em escala gigantesca, uma dose saudável de lutas mano-a-mano que exploram os poderes de novos mutantes como Psylocke (Olivia Munn) e a reintroduzida Tempestade (Alexandra Shipp), e até uma participação especial empolgante revelada no trailer.

Os membros do elenco que retornam para personagens introduzidos em X-Men: Primeira Classe (2011) são os destaques das atuações, obviamente, e a Michael Fassbender (Magneto) é dado o material mais denso e interessante do filme, com um arco que incluí uma tragédia pessoal encenada de maneira absurdamente tocante pelo ator. Entre os recém-chegados, vale destaque para Isaac, que interpreta um vilão formidável com ares de arrogância e ameaça que seus personagens anteriores no cinema não demonstravam; e para Sophie Turner (Jean) e Kodi Smit-McPhee (Noturno), imediatamente memoráveis em papeis assumidos anteriormente pelos pesos pesados Famke Janssen e Alan Cumming. Um detalhe que salta aos olhos além do elenco, no entanto, é o quanto os efeitos especiais de Apocalipse tem um visual completamente único a eles, simplesmente porque não há a pretensão de realismo incutida nem no trabalho de câmera nem na elaboração plástica dos efeitos.

Em X-Men: Apocalipse, fagulhas roxas dançam em torno do vilão principal enquanto ele “transfere de corpo”, os raios invocados por Tempestade aparecem em tom, detalhes e efeitos vibrantes, a lâmina de energia conjurada por Psylocke brilha em um rosa luminoso, e as asas de Arcanjo soltam afiadas penas de metal. É um mundo fantasioso que não se desculpa por sê-lo, e é um espetáculo visual que só uma audiência mimada com efeitos de configuração padronizada poderia deixar de apreciar. Ao mesmo tempo, é o filme de super-heróis mais socialmente importante de 2016 – aparentemente, é possível sim ter tudo.

✰✰✰✰✰ (5/5)

x-men apocalypse 2

X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, EUA, 2015)
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Simon Kinberg
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac, Rose Byrne, Evan Peters, Josh Helman, Sophie Turner, Tye Sheridan, Lucas Till, Kodi Smit-McPhee, Ben Hardy, Alexandra Shipp
144 minutos

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