2 de ago de 2016

Diário de filmes do mês: Julho/2016

diário julho

por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

the guest

The Guest (EUA/Inglaterra, 2014)
Direção: Adam Wingard
Roteiro: Simon Barrett
Elenco: Dan Stevens, Maika Monroe, Brendan Meyer, Sheila Kelley, Leland Orser, Lance Reddick, Joel David Moore, Ethan Embry
100 minutos

Recentemente, o diretor Adam Wingard anunciou que seu projeto ultra-secreto anteriormente anunciado com o título The Woods é na verdade uma continuação de A Bruxa de Blair, neo-clássico de 1999, feita em segredo. Em uma edição anterior do boletim cinéfilo, já falamos do filme que mais qualifica Wingard como um mestre em formação da mistura de gêneros e especialmente do terror, o ótimo Você é o Próximo (veja o que dissemos aqui). Para continuar no pique, esse mês vimos The Guest, sua obra mais recente, e o filme nos fascinou, prendeu e divertiu de uma forma bem diferente do anterior.The Guest é um suspense oitentista em seu cerne, algo que fica claro na composição visual de seus materiais promocionais, na escolha do clímax, bizarramente passado em um labirinto decorado por uma escola para o Dia das Bruxas, e no desenrolar de sua trama. O estranho David (Dan Stevens) invade a vida da família Peterson dizendo que costumava conhecer o filho deles, que morreu na guerra – David foi antes à casa dos Peterson do que a qualquer outro lugar, e aos poucos vai se insinuando na rotina doméstica da família, conquistando de uma forma ou de outra as simpatias da mãe, a sofrida Laura (Sheila Kelley); do pai, o trabalhador Spencer (Leland Orser) e do filho mais novo, o jovem e inseguro Luke (Brendan Meyer).

Stevens está em estado de graça como o protagonista. O astro lançado por Downton Abbey, que em breve fará o príncipe Adam em A Bela e a Fera, mostra que tem faro para papeis diferentes, que exijam uma ameaça velada e um controle sutil – seu David não é nunca impositivo ou aterrorizante de forma explícita, é apenas uma presença penetrante cujas graças sociais, o espectador sabe, brotam de motivos desconhecidos e nada inocentes. Com um temperamento explosivo que não foge de ser sangrento quando precisa, The Guest é menos caloroso e mordaz do que Você é o Próximo, um filme de invasão domiciliar travestido de comédia de humor negro, mas é igualmente bem construído para seus propósitos. Absurdo, com um gosto apurado para o trash e o charme do cinema dos anos 80, o filme de Wingard reverte expectativas de familiaridade e brinca com aspectos sombrios da jornada de amadurecimento padrão de Hollywood. É a obra de um cineasta em crescimento, mas funciona.

✰✰✰✰ (3,5/5)

musaranas

Musarañas (Espanha/França, 2014)
Direção: Juanfer Andrés, Estevan Roel
Roteiro: Juanfer Andrés, Sofía Cuenca
Elenco: Macarena Gómez, Nadia de Santiago, Hugo Silva
91 minutos

Um thriller hitchcockiano de relações familiares femininas distorcidas, com aquelas mesmas pontas afiadas de psicossexualidade do velho mestre do suspense, adicionado a uma dose saudável de voyeurismo violento à la Quentin Tarantino – essa é a receita para Musarañas, o terror espanhol que serve como estreia da dupla Janfer Andrés & Estevan Roel na direção. Diminuir o filme às suas referências, no entanto, não é fazê-lo justiça: ele é também uma visceral análise do medo e de seus efeitos sobre o ser humano, da exasperante e sufocante sensação de mudança que se abate em uma geração que sacrificou sua própria independência em virtude das dificuldades da vida entre Guerras e ditaduras, e que agora, assim como a protagonista Montse, não se vê estimulado a sair de casa para encarar um ambiente que não deve lhe acolher. A agorafobia da personagem é uma manifestação desse medo geracional, e Musarañas reflete, em seu cenário único, ambiente claustrofóbico e clímax cheio de revelações devastadoras, uma situação muito maior que si. O blefe dos diretores e da co-roteirista Sofía Cuenca funciona, seja pela intensa dramaticidade dos acontecimentos ou pela riqueza de significados imbuídos neles.

Na trama, Montse (Macarena Gómez) é a irmã mais velha que, após a morte tanto do pai quanto da mãe da família, criou praticamente sozinha a irmã caçula, que permanece sem nome durante o filme (Nadia de Santiago). Quando a mais nova começa a ter desejos que muito ultrapassam a capacidade de controle de Montse, as coisas começam a desmoronar na família – especialmente após o vizinho de prédio Carlos (Hugo Silva) despencar da escada direto na porta da casa, e passar a depender de Montse para sobreviver. Musarañas toma seu tempo para desenvolver a trama, mas a tensão é palpável, em grande parte por conta da vigia estrita da protagonista sobre os passos da irmã, especialmente quando dentro da casa, visto que Montse é tomada por fobia paralisante quando tenta passar da porta da frente. Em atuação intensa, Gómez vai retirando as camadas protetoras de Montse com habilidade, e o filme se revela, em seu ritmo, uma bem-estudada história de horror com o potencial de marcar a memória do espectador.

✰✰✰✰ (3,5/5)

Hello-My-Name-Is-Doris

Hello, My Name is Doris (EUA, 2015)
Direção: Michael Showalter
Roteiro: Laura Terruso, Michael Showalter
Elenco: Sally Field, Max Greenfield, Stephen Root, Tyne Daly, Wendi McLendon-Covey, Kumail Nanijani, Elizabeth Reaser, Natasha Lyonne, Jack Antonoff, Beth Behrs
95 minutos

Sally Field é uma lenda viva, e uma das melhores atrizes americanas na ativa atualmente. Vencedora de dois Oscar, Field merece lugar entre as Meryl Streep’s, Jane Fonda’s, Jessica Lange’s e Glenn Close’s, mas por algum motivo, nos últimos anos, raramente vemos Sally em tela. Nos últimos seis anos, ela esteve só em quatro projetos – os dois O Espetacular Homem-Aranha, o drama Lincoln, e esse excêntrico Hello, My Name is Doris. Não é surpresa, portanto, que Field abrace com vontade a oportunidade de retratar uma personagem tão rica, envolvida em uma história tão raramente contada no cinema, e que lhe permite passear entre comédia física e escrachada (na qual Field é surpreendentemente excelente), construção de personagem cheia de minúcias e detalhes visuais, e drama pungente. Ela “muda de marcha” com a rapidez e a habilidade de uma profissional veterana, mas é na sua vivaz encarnação da trama e da personagem que mora o charme de Hello, My Name is Doris, que sem ela seria uma boa ideia desperdiçada por um roteiro que comete alguns tropeços aqui e ali.

Não nos leve a mal: o roteiro de Michael Showalter (Wet Hot American Summer) ao lado de Laura Terruso, de quem Showalter emprestou a premissa de um curta-metragem, é bem-intencionado e tem momentos de brilhantismo em sua delicadeza e óbvia afeição pelos personagens; a direção de Showalter também não deixa a desejar, encontrando pequenos momentos em que o visual auxilia a comédia tanto quanto o diálogo; Tyne Daly está tão incrível como a melhor amiga da protagonista quanto era de se esperar para uma vencedora de 6 prêmios Emmys; mas na trama sobre uma solteirona que acaba de perder a mãe a quem dedicou toda sua vida, e que decide investir em um crush que cultiva pelo colega de trabalho mais novo (Max Greenfield, fugindo habilidosamente do seu tipo normalmente mais antipático), é Field quem dá as cartas. É por ela que nos apaixonamos, e é através dela que entendemos essa história sobre uma nada comum, mas tremendamente viva, história de luto, superação e descobrimento.

Por conta de Sally Field, Hello My Name is Doris é belíssimo. Não são muitas atrizes por aí que tem esse tipo de poder sobre o filme em que atuam.

✰✰✰✰ (4/5)

let me in

Deixe-me Entrar (Let Me In, Inglaterra/EUA, 2010)
Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves, John Ajvide Lindqvist
Elenco: Kodi Smit-McPhee, Chlë Grace Moretz, Richard Jenkins, Cara Buono, Elias Koteas, Richie Coster, Dylan Minnette
116 minutos

Em tempos de Stranger Things, Deixe-me Entrar, o remake americano do neo-clássico sueco de mesmo nome, está prontinho para ser redescoberto por uma audiência faminta por mais histórias de suspense focadas em protagonistas mais novos, que lidam com um ambiente oitentista e fazem referência à forma de contar histórias da época. O filme de Matt Reeves se passa na época de Reagan, quando o medo e o patriotismo andavam de mãos dadas, e os americanos só confiavam no que era familiar – ironicamente, o filme é também uma triste documentação de infâncias e juventudes negligenciadas justamente por aqueles que deveriam chamar de família. No enquadramento de Reeves e do diretor de fotografia Greig Fraser, o rosto da mãe de Owen (Kodi Smit-McPhee), sempre envolvida em brigas com o ex-marido e com um copo de vinho em mãos, praticamente não é visto, e não é por acaso. Os relacionamentos mais significativos e abertos de Owen são com a jovem Abby (Chloe Grace Moretz), uma estranha nova vizinha de prédio, e com os colegas de classe, especialmente o insistente bully feito por Dylan Minnette (Goosebumps). No filme de Reeves, essas crianças são o que são pelo que deixaram de receber, e não pelo que receberam, de seus pais – é um retrato deprimente e gelado, como os arredores do filme.

O filme pulsa também, no entanto, com uma ambiguidade de quebrar o coração, uma mistura do maligno com o fundamentalmente puro que não é nem um pouco estranha a quem passou pela infância e adolescência. “Eu lembro-me de minha infância vividamente. Eu sabia de coisas terríveis”, como disse o autor Maurice Sendak (Onde Vivem os Monstros) uma vez – essa aguda percepção infantil, esse olhar para o que há de mais amargo e mais assustador do mundo, transpira de Deixe-me Entrar, um filme espetacularmente bem escrito que nem sempre encontra o tom certo para funcionar por completo, mas que sem dúvida merece ser assistido. Mesmo que seja só pelas performances complementares e profundas de Smit-McPhee e Moretz, em sintonia perfeita entre si e com o filme ao seu redor, criando uma identificação e comunicação com o espectador que às vezes o próprio diretor Reeves esquece de estabelecer.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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