26 de ago de 2016

Review: American Crime Story constrói uma narrativa poderosa das variáveis da justiça

acs

por Caio Coletti

Ryan Murphy não escreveu uma palavra de American Crime Story: The People v. O.J. Simpson. O criador de Glee, Scream Queens e American Horror Story atua como produtor, diretor de alguns episódios e como idealizador da “marca” American ____ Story, mas seu envolvimento na criação, planejamento e eventual redação dos 10 episódios dessa minissérie indicada a nada menos que 22 Emmys não é só mínimo, é nulo. Isso é importante não porque tenho qualquer coisa contra Ryan Murphy, mas porque é flagrante que o produtor não encostou nos roteiros comandados pelos showrunners Larry Karaszewski e Scott Alexander, e também é flagrante o motivo pelo qual ele fez isso: American Crime Story é muito mais sobre densidade e profundidade do que é sobre iconoclastia, referência pop, ou arcos de personagem desenhados com pinceladas grossas e exuberantes. É um animal mais sutil, mais sufocante, mais psicológico e, talvez por isso, mais envolvente e, eventualmente, desesperador.

A história real em que a temporada se concentra é um marco da Justiça americana: o julgamento do jogador de futebol americano O.J. Simpson (Cuba Gooding Jr) pelo assassinato da ex-eposa Nicole Brown Simpson e seu amigo Ron Goldman. Não só a história é cheia de reviravoltas espetaculares e traz momentos que definiram precedentes para casos que estariam por vir, como todo o processo de mais de uma dezena de meses define espetacularmente o momento de tensão racial que vivemos hoje em dia, provendo uma reflexão absolutamente essencial sobre a forma como racismo, machismo, a atenção da mídia e mais uma infinidade de fatores influenciam o funcionamento da Justiça. Em um julgamento conduzido largamente pela opinião popular, encapsulando uma época (e ao mesmo tempo um padrão que se repete até hoje) de brutalidade policial, injustiças sociais contra negros e mulheres, e um jornalismo irresponsável em busca de audiência acima de informação, American Crime Story encontra uma oportunidade espetacular de refletir sobre como a história moldou o que somos hoje.

Karaszewski e Alexander sabem como lidar com essa narrativa da forma correta, equilibrando caricaturas de personagens reais (como a feita por John Travolta, excepcional em seu próprio “canto” da história) com expressões muito coesas e interessantes de personas e situações que valem tanto como documento histórico quanto com material de identificação para o espectador. Vide, por exemplo, o trabalho magnífico de Sarah Paulson, já há algum tempo o coração e a alma de American Horror Story, como Marcia Clark, a principal advogada da acusação. Seu retrato é muito marcante, expressivo e representativo dos dilemas que mulheres precisam lidar no ambiente profissional e pessoal, especialmente sob o escrutínio de um público que se importa mais com sua aparência ou seu tom de voz do que com sua competência – é uma composição humana de uma mulher falha, formidável e corajosa, que talvez esperasse mais do mundo do que o mundo lhe deu. É de quebrar o coração, mas é um testemunho de resiliência e vitória moral também.

Nesse terreno moral complicado, American Crime Story, anda nas pontas dos pés pelas ruínas de uma tragédia americana que esteve por todos os jornais da época e até hoje – e encontra atores comprometidos com a jornada emocional dos personagens, acima de sua representação social, para dar alma e força a essa história. Cuba Gooding Jr está brilhante como O.J, assim como Courtney B. Vance e Sterling K. Brown na pele de advogados de lados opostos do julgamento, mas companheiros na luta pelos direitos civis dos negros. Em participações menores, David Schwimmer e Connie Britton também se destacam pelo retrato da ignorância que guia um determinada classe social a proteger seus amigos celebridades (ou seus próprios interesses) antes de discriminar verdades de mentiras.

Tensa e focada como precisava ser, American Crime Story não suportaria o peso das extravagâncias narrativas de Ryan Murphy, mas o criador faz um trabalho espetacular na direção dos dois episódios que assume, criando uma série de imagens marcantes que elevam o discurso de The People v O.J. Simpson quando estão em tela. Deve-se dá-lo crédito, portanto, porque American Crime Story é melhor quando ele está por trás das câmeras, casando perfeitamente a narrativa séria e importante de Karaszewski e Alexander com o estilo visualista de sua direção. 22 indicações ao Emmy definitivamente merecidas.

Caso não vença na categoria principal de Melhor Minissérie, no entanto, vale lembrar que American Crime Story: The People v O.J. Simpson ainda é o pedaço de televisão mais essencial de 2016, a narrativa que você precisa consumir para entender a forma como a arte e a história refletem a sociedade no estado em que ela se encontra nesse exato momento. É urgente que se veja, se entenda e se pense em O.J. Simpson mais de 20 anos depois, porque os mecanismos que famosamente (não conta como spoiler se é história real) o inocentaram de um assassinato que ele, segundo todos os especialistas, certamente cometeu, ainda estão em pleno funcionamento. Quem sai como culpado nessa história toda não é o réu interpretado por Cuba Gooding – no sentimento de opressão e o gosto amargo que ACS nos deixa, somos nós.

✰✰✰✰✰ (5/5)

THE PEOPLE v. O.J. SIMPSON: AMERICAN CRIME STORY "Conspiracy Theories" Episode 107 (Airs Tuesday, March 15, 10:00 pm/ep) -- Pictured: (l-r) Sterling K. Brown as Christopher Darden, Cuba Gooding, Jr. as O.J. Simpson. CR: Ray Mickshaw/FX

American Crime Story: The People v O.J. Simpson (EUA, 2016)
Direção: Ryan Murphy, Anthony Heminghway, John Singleton
Roteiro: Scott Alexander, Larry Karaszewski, D.V. DeVicentis, Maya Forbes, Joe Robert Cole, etc
Elenco: Cuba Gooding Jr, Sarah Paulson, Sterling K. Brown, Courtney B. Vance, Kenneth Choi, David Schwimmer, John Travolta, Bruce Greenwood, Jordana Brewster, Connie Britton, Selma Blair, Nathan Lane
10 episódios

0 comentários: