23 de ago de 2016

Review: “Esquadrão Suicida” é uma apressada, mas aceitável, adição à fascinante mitologia da DC

esquadrão

por Caio Coletti

Assistir Esquadrão Suicida no cinema é como experimentar de novo uma daquelas ondas de empolgação da infância, aquela embriaguez que não é de álcool. É como um passeio de montanha-russa depois de comer açúcar em excesso. A descrição pode parecer coisa de fã, mas não tem nada a ver com a sensação de ver personagens amados tomarem vida em tela pela primeira vez – é proposital da edição, do roteiro e do aspecto visual do filme de David Ayer essa estética quadrinesca, essa narrativa o tempo todo a 100 km/h, a edição esquizofrênica e o visual que mistura de forma escalafobética sombras e cores, em uma estilização bem à la Hot Topic, a célebre loja de roupas e acessórios americana que famosamente deve muito do seu sucesso ao apelo da Arlequina em sua fase pós-Batman: A Série Animada.

Talvez justamente por optar por essa estética, o Esquadrão Suicida de David Ayer como chegou nos cinemas (não importa, de fato, se foi a Warner que retalhou e modificou o filme ou não) parece um exercício primário de narrativa, sem a nuance e as entrelinhas que vimos em instalações anteriores da franquia da DC Comics no cinema. Chegando só cinco meses depois de Batman vs Superman, o filme do Esquadrão faz jus ao seu nome – pula do abismo da narrativa pop e às vezes exagera um pouco na sua celebração dela, não entendendo as armadilhas que uma exploração rasa do mito do herói ou da mitologia das HQs pode trazer. Por sorte, Esquadrão Suicida tem algumas peças no jogo que podem mudar um pouco isso: os atores.

Maior entre eles, nada surpreendentemente para quem acompanhou a expectativa e a campanha ao redor do filme: Margot Robbie como a Arlequina, uma das personagens mais lucrativas da DC desde sua criação no desenho animado do Batman dos anos 90 – no papel da ex-psicóloga transformada em maníaca pelo Coringa (Jared Leto), Robbie não só ofusca o celebrado colega de elenco como provém uma profundidade à personagem que absolutamente não está no roteiro. Nas mãos da jovem atriz australiana, as piadas mais infames funcionam, e o sombrio sadismo e languidez sexual da Arlequina são equilibrados por uma dimensão de tragédia que nunca deixa a personagem ser fetichizada ou glorificada pelo que se tornou graças a um relacionamento abusivo. No final do filme, fica a impressão de que Margot entende melhor a Arlequina que o próprio roteiro.

Nem só de Harley, no entanto, vive Esquadrão Suicida (infelizmente, muitos diriam). A trama envolve uma agente do governo, Amanda Waller (Viola Davis), desenvolvendo ao lado do seu mais fiel soldado, Rick Flag (Joel Kinnaman), um projeto arriscado: reunir vilões dos mais diversos cantos do universo pós-Superman em que o filme se passa e mandá-los em missões que nenhum outro herói ousaria cumprir. A famosa “síndrome do mau vilão” assola até mesmo esse filme, que é essencialmente composto de caras maus, porque a ameaça contra a qual o Esquadrão precisa luta é a Magia (Cara Delevingne), uma feiticeira antiga que se alojou no corpo de uma jovem arqueóloga e planeja… espera, o que é mesmo que ela planeja? Construir uma máquina de algum tipo e criar soldados meio-répteis, meio-humanos para ajudá-la na missão de fazer a humanidade adorá-la como uma deusa, ou algo assim.

Delevingne está lamentável no papel da vilã, especialmente porque o filme não a permite ser nada melhor do que uma presença risível, com um visual que nem mesmo pode ser descrito como “estourado”, porque não parece consciente o bastante de si para isso. Adicione a isso o problema de que David Ayer simplesmente não faz ideia de como filmar uma cena de ação (diretor de fotografia Roman Vasyanov e editor John Gilroy não ajudam), e você tem a lista de defeitos de Esquadrão Suicida, que mesmo assim parece superar esses obstáculos pela pura força de seus personagens, ícones fascinantes da narrativa popular que tem muito a dizer sobre nossa relação com figuras heroicas e mitos de “salvadores”.

Assim como O Homem de Aço e Batman vs Superman, Esquadrão Suicida é um filme de super-herói incansável em sua contestação do próprio mito do super-herói, e há algo de definitivamente subversivo e flagrantemente fundamental nisso. Ao mostrar a visão dos vilões sobre os atos de gente como o Batman e o The Flash, Ayer criou uma fantasia em que o relativismo moral não parece algo forçado à narrativa, mas natural de sua própria concepção – com Esquadrão Suicida, a DC segue em seu caminho de não só desfazer as noções rígidas e conservadoras de bem e mal dentro da narrativa popular, mas de questionar porque diabos sequer as colocamos ali. É um empreendimento poderoso esse que a editora/estúdio está propondo, e a esperança é que as mudanças de comando nos bastidores e as críticas dos jornalistas especializados não a façam mudar de direção. Coragem sob fogo definitivamente é algo que a DC pode aprender com seus heróis (e vilões).

✰✰✰✰ (3,5/5)

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Esquadrão Suicida (Suicide Squad, EUA, 2016)
Direção e roteiro: David Ayer
Elenco: Will Smith, Margot Robbie, Viola Davis, Jai Courtney, Joel Kinnaman, Jared Leto, Cara Delevingne, Jay Hernandez, Adam Beach, Scott Eastwood, Common, Karen Fukuhara, Kenneth Choi, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Ezra Miller
123 minutos

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