12 de out de 2016

Diário de filmes do mês: Setembro/2016

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

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O Homem nas Trevas (Don’t Breathe, EUA, 2016)
Direção: Fede Alvarez
Roteiro: Fede Alvarez, Rodo Sayagues
Elenco: Stephen Lang, Jane Levy, Dylan Minnette, Daniel Zovatto
88 minutos

A maioria das críticas de O Homem nas Trevas vai te fazer pensar que o filme de Fede Alvarez (A Morte do Demônio) é uma viagem de montanha-russa tremendamente criativa em que o espectador tem pouco tempo para pensar, muitas reações viscerais e passa o tempo todo na ponta da cadeira. E sim, O Homem nas Trevas é mesmo tudo isso – o que a maioria das críticas não vai creditar é o quão subversivo é o seu tratamento da moralidade e especialmente seu retrato dos três jovens que protagonizam a trama. Um trio de jovens ladrões que resolve entrar na casa de um veterano de guerra cego, mas não esperam a brutalidade e habilidade de seu dono, esses protagonistas são vistos por uma luz que pode não ser exatamente simpática, mas é compreensiva. O Homem nas Trevas triunfa por seu clima claustrofóbico por sua aparentemente infindável criatividade, sim, mas também pela forma como nos engaja na narrativa ao mostrar os vícios e moralidades tortas não da geração mais jovem, que realiza o ato condenável de roubar, mas da geração mais velha, que toma posse do corpo alheio pelas injustiças cometidas contra si.

Teorizações filosóficas à parte, no entanto, O Homem nas Trevas é muito o show de três atores: os jovens Dylan Minnette (Goosebumps) e Jane Levy (Suburgatory) e o veterando Stephen Lang (Avatar). O equilíbrio entre as performances de cada um deles, da insegurança raciocinada de Minnette à brutalidade sofrida de Lang, é o que mantem O Homem nas Trevas funcionando como uma jornada angustiante e cheia de recursos. Os 88 minutos do filme parecem se arrastar por horas graças às múltiplas formas que Alvarez encontra para explorar novos cantos da casa que serve de cenário para sua história, novos elementos da trama e dos personagens. Com edição ágil, mas não afobada, e sem medo de se arriscar por caminhos tabu, o filme de Alvarez é um terror pulsantemente moderno e tremendamente bem executado.

✰✰✰✰ (4/5)

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Maria Cheia de Graça (Maria Full of Grace, Colômbia/EUA/Equador, 2004)
Direção e roteiro: Joshua Marston
Elenco: Catalina Sandina Moreno, Yenny Paola Vega, Guilied Lopez
101 minutos

As virtudes mais especiais de Maria Cheia de Graça, filme de estreia do celebrado diretor e roteirista indie Joshua Marston, não se mostram facilmente. Lançado em 2004, o filme não tem fotografia sofisticada ou valores de produção altos, nem faz considerações filosóficas óbvias. É uma verdadeira produção independente porque encontra beleza e significado naquilo que reside nas entrelinhas de uma história simples e, infelizmente, muito crível. A trama gira em torno de Maria (Catalina Sandino Moreno), uma jovem colombiana que, de temperamento forte, se demite do local onde trabalhava e era tratada de forma revoltante. Para conseguir prover para a família, ela aceita outro emprego: o de “mula” de drogas entre a Colômbia e os EUA, carregando pacotes de cocaína embrulhados em grossos envelopes de látex – dentro do estômago. A perigosa operação culmina na tragédia que se anunciava desde o princípio, mas conforme os 101 minutos de filme vão passando, fica claro que Maria Cheia de Graça não é um filme que vai aceitar perder, de certa forma, a esperança.

Catalina Sandino Moreno, indicada ao Oscar pelo papel e infelizmente mal-aproveitada por Hollywood desde então, apresenta um espetáculo para os olhos do espectador atento. Ela domina e se comunica com a câmera de forma excepcional, preenchendo os espaços do filme com uma energia que é radiantemente inteligente, mas sem esquecer das pequenas tragédias e tristezas de sua personagem. Ambição, desespero, saudosismo, esperança e determinação passam por seus olhos daquela forma quieta, sutil e tremendamente eficiente que marca qualquer excelente atriz. Nas mãos de Catalina, Maria Cheia de Graça se transforma em mais que um filme sensível sobre uma questão importante – por causa dela, é uma parábola inesquecível que destrói e fortalece o sonho americano ao mesmo tempo, uma reinvenção completa que passa pela tela como um respiro de ar fresco da metrópole: venenoso, mas cheio de promessas.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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As Tartarugas Ninja: Fora das Sombras (EUA/Hong Kong/China/Canadá, 2016)
Direção: Dave Green
Roteiro: Josh Appelbaum, André Nemec
Elenco: Megan Fox, Will Arnett, Laura Linney, Stephen Amell, Noel Fisher, Jeremy Howard, Pete Ploszek, Alan Ritchson, Tyler Perry, Tony Shalhoub, Brad Garrett
112 minutos

Vamos deixar uma coisa bem clara: ninguém espera um grande filme quando o título é Tartarugas Ninja. O reboot de 2014, que trouxe os personagens famosos nos anos 90 de volta à vida, tirou um bom dinheiro de um público nostálgico pela diversão de sua infância, e a continuação era inevitável. Assim como seu predecessor, Fora das Sombras é um espetáculo de CGI dos mais entediantes que Hollywood pode produzir, com personagens desenhados da forma mais caricata possível, apoiado em algumas cenas de ação eficientemente conduzidas por um diretor mais ou menos competente, e no puro saudosismo que os personagens podem oferecer. Nestes limites, ele com certeza poderia ser pior – Fora das Sombras abraça os impulsos mais bizarros da mitologia original, trazendo vilões como Rocksteady, Bebop e Krang à vida em concepções apropriadamente ridículas e colocando Tyler Perry (?) para interpretar um cientista (??) que tem as linhas de diálogo expositivas mais absurdas que você já ouviu em blockbuster hollywoodiano. Nesse ponto, alguns de vocês devem estar pensando: bom, parece divertido. E é, mais ou menos.

Divertido, na realidade, é um conceito estranho na Hollywood de hoje. Tartarugas Ninja tem piadas previsíveis e às vezes até irritantes, uma mensagem boboca e batida (mas ainda assim positiva) sobre trabalho de equipe, e a casual objetificação femininas que nos acostumamos a ver, infelizmente, sempre que Megan Fox ou qualquer jovem estrela de Hollywood aceita fazer um filme de ação. Em suma, Fora das Sombras é um dos produtos mais francos e desavergonhados de Hollywood em um bom tempo, e acontece que atualmente os impulsos básicos da terra do cinema são tão condenáveis que não podemos nem mesmo usar essa frase como uma virtude. Por todo o seu “valor nostálgico” e sua ação bem conduzida, Tartarugas Ninja 2 ainda é um produto do seu sistema, e isso é um grande problema.

✰✰✰ (2,5/5)

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