20 de nov de 2016

Review: Em Doutor Estranho, a Marvel deixa claro que nada mais será simples em seu universo

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por Caio Coletti

Oito anos e quatorze filmes depois de Homem de Ferro, a sensação que 2016 passou para aqueles que acompanham o universo cinematográfico Marvel desde o começo é que ele finalmente atingiu a maioridade. Talvez seja a influência dos Irmãos Russo, diretores do espetacular Capitão América: Guerra Civil, lançado no meio deste ano – segundo o produtor Kevin Feige, foram os Russo que o convenceram de que a Marvel precisava começar a “desconstruir” seus heróis e seus conceitos após tantos anos e filmes construindo-os. O resultado foi um universo Marvel que é uma contestação de si mesmo, das ideias de heroísmo e poder que a editora/estúdio estabeleceu desde 2008 – essa corrente subversiva sempre esteve ali, para quem prestasse atenção, mas agora a Marvel não vê mais sentido em escondê-la.

Doutor Estranho é certamente parte desse movimento da franquia em direção de um conceito mais complicado de heroísmo, e que apropriado que seja. Criado em 1963 por Stan Lee e Steve Ditko, Doutor Estranho abraçava a filosofia mística da década dos hippies (e os visuais psicodélicos, é claro) com muito mais fervor do que qualquer outro personagem de quadrinhos de sua época. Com seus vilões cósmicos de outras dimensões prontos para “devorar” a Terra, o Doutor Estranho era um homem que foi mudado para sempre por ensinamentos muito baseados no budismo, com uma pitada de mitologia celta. Ele era tanto um homem da ciência quanto um homem da fé, um herói pregando a convivência pacífica em um mundo militarista sem abrir mão de suas qualidades menos tradicionalmente admiráveis.

É isso que o filme lançado neste novembro acerta em cheio – aqui, como nos quadrinhos, o Dr. Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) é um cirurgião famoso e convencido que, após um terrível acidente de carro, perde o uso de suas preciosas mãos. Após buscar curas em todos os cantos do mundo, ele finalmente recorre ao Kamar-Taj, um templo comandado pela Anciã (Tilda Swinton) que promete lhe ensinar magia para que ele alcance uma “cura espiritual”. A forma como o roteiro de Scott Derrickson, Jon Spaiths e C. Robert Cargill vende a incredulidade de Strange é um truque fácil para fazer o espectador se sentir tão maravilhado quanto ele quando os segredos do multiverso (a multiplicidade de realidades alternativas que o universo Marvel dos quadrinhos já adota a tempos) são aos poucos revelados.

No entanto, como Doutor Estranho revela, essas descobertas e esse poder tem um preço. O vilão Kaecilius (Mads Mikkelsen) encara esse preço como um comprometimento moral inaceitável, e sua firmeza ideológica o torna “um radical”, como é constantemente descrito. Durante a tour promocional do filme, Mikkelsen sempre dizia que Kaecilius era um vilão diferente porque “tinha um ponto válido” em suas crenças – de forma muito parecida com o Barão Zemo de Daniel Brühl em Guerra Civil, aliás, Kaecilius é um vilão porque transforma suas frustrações com a imperfeição humana em um impulso destrutivo. Enquanto isso, os heróis de ambas as tramas são pessoas que aceitam que nem sempre o caminho para um futuro melhor é formado por decisões fáceis e dualidades simples. Em Doutor Estranho, a Marvel continua a montar um caso a favor de líderes (e heróis) pragmáticos e humanos.

Com seu passado no cinema de terror, Scott Derrickson é uma escolha interessante para comandar o filme do Doutor Estranho. O cineasta se mostra hábil com efeitos especiais e capaz de mexer com a percepção do espectador, resultado nos visuais mais espetaculares da Marvel até hoje – nada do que o estúdio fez até aqui se compara com a extensa sequência em que Dr. Strange viaja pela primeira vez pelos universos alternativos. É uma mistura do estilo psicodélico dos quadrinhos clássicos com um quê moderno, especialmente no sentido de tornar mais viscerais e físicos os confrontos mágicos entre heróis e vilões. Não seria nem um pouco de se estranhar se Doutor Estranho finalmente rendesse o Oscar de Melhores Efeitos Especiais para a Marvel.

Talvez por causa desse tom impresso por Derrickson, algumas tentativas de humor do roteiro parecem mais “obrigatoriedades Marvel” aqui do que em outros filmes da editora. Muitas delas funcionam pelo timing dos atores e do diretor, mas não são exatamente adequadas ao filme. Por falar em atores, Benedict Cumberbatch é uma bela adição ao espectro de intérpretes da Marvel, trazendo uma austeridade e um humor cáustico que só é marcantemente diferente do de Tony Stark, por exemplo, graças a sua interpretação. Tilda Swinton não impressiona como a Anciã, acostumada com roteiros que servem melhor à sua excentricidade, abrindo espaço para Mikkelsen e Chiwetel Ejiofor brilharem mais, enquanto Rachel McAdams infelizmente passa um pouco mal-aproveitada pelo roteiro.

O mais bacana de Doutor Estranho é que, assim como Guerra Civil, ele não parece ter saído da “linha de produção” padronizada que a Marvel usava nas fases anteriores de seu universo. É único em sua abordagem e seu visual, e funciona melhor por isso, mostrando que a editora deixou para trás os tempos em que suas histórias de heroísmo eram enganosamente simples – agora, na superfície ou não, tudo na Marvel é, e deve continuar sendo, um espelho mágico da nossa complicada realidade.

✰✰✰✰ (4/5)

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Doutor Estranho (Doctor Strange, EUA, 2016)
Direção: Scott Derrickson
Roteiro: Jon Spaiths, Scott Derrickson, C. Robert Cargill
Elenco: Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Benedict Wong, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton, Michael Stuhlbarg, Benjamin Bratt, Scott Adkins
115 minutos

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