12 de dez de 2016

As 10 melhores canções de 2016

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por Caio Coletti

O ano está acabando, e preparamos uma pequena surpresa: além da completíssima lista de 30 (30!) melhores discos do ano que deve aparecer por aqui no mês que vem, resolvemos marcar o reveillon com um ranking das melhores faixas individuais de 2016! Na nossa seleção entraram singles e não-singles, entrou soul, entrou pop, entrou indie e entrou R&B. Como sempre, o lema é quanto mais eclético melhor! A listinha provavelmente deve ter algumas surpresas e preciosidades para todo mundo descobrir. Vamos lá?

10) Desperado – Rihanna

Quando Rihanna finalmente quebrou o silêncio de quatro anos sem lançar álbuns com o Anti, no finalzinho de janeiro, a sensação foi que o ano musical tinha finalmente começado. A espera valeu a pena para ouvir um álbum genuíno e à flor da pele como todos os anteriores de Rihanna, mas com um espírito experimental e aventureiro que era inédito. “Desperado” é uma canção machucada que conjuga o conflito entre querer estar sozinho, mas não querer estar solitário – levada com segurança por Rihanna nos vocais, a faixa coloca uma batida simples sobre versos quebrados, criando um ambiente melódico que é único do Anti, uma das obras pop mais singulares que vimos em muito tempo.

9) John Wayne – Lady Gaga

“John Wayne” é a faixa que prova de uma vez por todas: se você achou o Joanne uma mudança muito radical da Lady Gaga que conhecíamos anteriormente, você não está ouvindo com atenção. Com guitarras country rock espremidas em uma melodia e uma letra que só Gaga poderia escrever, a canção fala de um amor urgente que poderia muito bem figurar nos temas “na beira do precipício” do Born This Way – com ganchos geniais e uma química pop cosmopolita em cima de suas raízes na música tradicional americana, “John Wayne” é exatamente o que foi concebida para ser: um prazer culpado incrustado no meio do ambíguo e corajoso Joanne.

8) The Sound – The 1975

Há sarcasmo pingando da letra de “The Sound”, segundo single do gloriosamente intitulado disco do The 1975, I Like it When You Sleep For You Are so Beautiful Yet so Unaware of It. Uma alegoria romântica sobre teclados disco, sintetizadores agudos e uma guitarra deliciosa, “The Sound” é na verdade um recado afiado aos fãs da primeira fase da banda que se desligaram da estética mais “colorida” e francamente pop do segundo álbum: “Não me diga que você ‘simplesmente não entende’/ Porque eu sei que sim”, canta Matty Healy, entregando uma perfeitamente irônica resposta que consegue não subestimar a inteligência dos fãs e cutucá-los ao mesmo tempo. Música pop raramente fica melhor que isso.

7) Moth to the Flame – Chairlift

Se você perguntasse para mim, “Moth to the Flame” deveria ser o clímax de todas as baladas de 2016 ao redor do mundo. A canção do Chairlift tem aquela qualidade icônica da grande música de pista de dança, na qual a repetição deliciosamente culpada serve a um propósito: realçar a situação lírica da música, em que o sujeito se vê inesperadamente atraído por algo que ele nunca consegue alcançar. “A esperança se esconde dentro de um clichê”, canta a angelical voz de Caroline Polachek em um dos versos, sob uma batida viciante e a produção sutil e acertada que aprendemos a esperar da banda. Clichês são clichês por um motivo: eles funcionam.

6) Operator (He Doesn’t Call Me) – Lapsley

Se você excluir todos os singles espetaculares que ela havia lançado antes do álbum, o destaque óbvio do álbum de estreia da Lapsley, um dos grandes talentos que encontrei esse ano, é “Operator”. Com um clima disco que passa pelo pacote de cordas aliado à batida e chega até a linha melódica dos versos, a canção é minimalista como Lapsley costuma ser, mas contagiante como poucas outras em sua discografia. Um conto simples e genioso de um amor à longa distância, “Operator” esconde um sentimento de quebrar o coração em cima de uma produção dançante, no melhor estilo da música pop dos anos 70 e 80.

5) Cool Girl – Tove Lo

Qualquer artista que seja capaz de acessar o inconsciente popular da forma como Tove Lo fez com “Habits” merece atenção, mas “Cool Girl” traz um outro nível de sofisticação ao discurso dessa sueca. Terrivelmente irônica e venenosa, a faixa que abriu os trabalhos do álbum Lady Wood ganha pontos pelo refrão em monotom contrastado com os versos mais “abertos”, uma combinação sempre exótica e difícil de fazer funcionar, mas ganha ainda mais pela forma como encapsula o ridículo e o delicioso da aversão da nossa geração ao compromisso romântico.

4) Death of a Bachelor – Panic! At the Disco

Se as palavras “Brendon Urie brincando de Frank Sinatra” não são o bastante para te convencer do porquê “Death of a Bachelor” está nessa lista, você não é meu tipo de pessoa. Brincadeiras à parte, o vocalista (e único membro) do Panic! At the Disco arrasa nos vocais da faixa, que expressa um sentimento meio-amargo de envelhecimento embebido na teatralidade e na ironia honesta (se é que isso é possível) que aprendemos a esperar do Panic. Guitarras sintetizadas se misturam com sopros no instrumental que traz o swing para o século XXI sem fazer muito barulho por isso.

3) She Lays Down – The 1975

A lista de melhores canções d’O Anagrama sempre chega no finalzinho com pelo menos uma composição simples e linda exatamente por sua simplicidade. Minha canção preferida de todos os tempos é “Moon River”, então vocês devem entender minha fraqueza por faixas como “She Lays Down”, que no álbum do The 1975 é executada apenas pelo vocalista Matty Healy e a guitarra. Com versos machucados que abordam a depressão pós-parto e o abuso de drogas da mãe de Healy, “She Lays Down” é uma daquelas composições que colocam uma melancolia universal em música e falam direto à sensibilidade mais profunda do ouvinte. Não há muito o que analisar – é arte.

2) Perfect Illusion – Lady Gaga

Por outro lado, uma elaboração complexa e fascinante como “Pefect Illusion” é também extremamente sedutora. Nenhuma outra faixa de música pop chegou com mais camadas, significados, compreensões e dimensões musicais quanto o primeiro single do Joanne, de Lady Gaga – há algo do pop rock de Cyndi Lauper, influenciado na melodia pelo blues do começo da carreira da cantora; há algo de “Total Eclipse of the Heart” na mudança de tom para o último refrão; há a batida constante do tecno europeu e as guitarras francamente americanas que permeiam o restante do álbum, tornadas “cosmopolitas” pelo produtor Mark Ronson.  É uma música sobre a separação entre verdade e mentira, arte e artista, história e realidade – sobre tudo de complicado com o que Gaga sempre foi fascinada, mas em uma roupagem enganosamente simples.

1) Love on the Brain – Rihanna

Me dê emoção à flor da pele com arte pop, no entanto, e você me ganhou. “Love on the Brain” é soul com seus corais e órgão, mas, ainda, tremendamente moderna em suas linha melódica e produção, das guitarras elétricas à batida sintetizada. É genuína em seu amor desesperado, e desesperada em seu amor genuíno. Tem a marca indelével de Rihanna nos vocais, esticando seu alcance sem se preocupar com a elegância da interpretação – é mais importante passar a mensagem do que torna-la digerível para um público que não vai entendê-la de qualquer forma. No Anti, o status de artista supera em muito o status de diva da cantora barbadiana, e as sofisticações são deixadas de lado de vez para um álbum cru e genial do qual “Love on the Brain” é a melhor representação.

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