18 de jan de 2017

Review: Artificial e genuíno, La La Land encarna a própria contradição do cinema

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por Caio Coletti

Em certo momento de La La Land, o pianista Sebastian (Ryan Gosling) tenta convencer a aspirante a atriz Mia (Emma Stone) de que não gostar de jazz é simplesmente um refrão usado por pessoas que não se interessam por entender a história do jazz. Conforme ele aponta as muitas canções e ideias diferentes sendo escritas no improviso pelos músicos no palco, Sebastian finaliza: “Isso é conflito, é compromisso, e é muito, muito excitante!”. Pode parecer (e pode até ser, sinceramente) um pouco presunçoso tentar entender os gostos e desgostos alheios, mas a forma como La La Land expõe a rejeição geral por esse ritmo e linguagem de outras eras não deixa de ser um comentário metaficcional sobre outro gênero, esse cinematográfico, muito odiado gratuitamente: o musical.

Em seu coração, La La Land é um filme-tratado muito mais do que um filme-história. É uma celebração pura de tudo o que uma nova geração de cinéfilos não suporta nos musicais, e uma tentativa de trazê-lo para a modernidade sem perder a pureza de sua linguagem. “Como você vai ser revolucionário se é tão tradicionalista?”, pergunta o personagem de John Legend em certo momento, tecendo mais uma camada desse meta-comentário essencial para o roteiro de Damien Chazelle. É aparente que Chazelle ama todas as particularidades do gênero, e seu esforço para nos apresentar e guiar pelo prazer da artificialidade do musical, pelo encantamento de seu ritmo, cor e energia cinemática única, é admirável. Tanto na direção quanto no roteiro, ele faz um trabalho estupendo.

A chave aqui é como Chazelle usa uma estrutura simples, uma história de amor e idealismo, a torna contemporânea e encantadora, e coloca nas entrelinhas uma reflexão mais profunda sobre o meio de arte que está exercendo. La La Land é sobre “os tolos que sonham”, sim, como Emma Stone canta naquele que é provavelmente o número musical pelo qual o filme será lembrado no futuro – “Audition (The Fools Who Dream)” tem o potencial para entrar no panteão de grandes baladas de musicais com “On My Own” (Os Miseráveis) e “Defying Gravity” (Wicked), por exemplo). É sobre comunicar uma paixão, seja ela artística, pessoal ou uma mistura das duas coisas. É sobre como esses conceitos se entrelaçam no cinema musical e na linguagem própria que ele carrega.

Com extensas cenas de dança filmadas virtualmente sem cortes, do primeiro número (“Another Day of Sun”) até a deliciosa brincadeira romântica entre os dois protagonistas em um pico de Los Angeles, La La Land subverte as expectativas de um público de musical que esqueceu das origens do gênero. De Fred Astaire a Gene Kelly, a história do musical cinematográfico não é uma de 20 canções por filme, engendradas perfeitamente nos momentos emocionais da história. Em seu cerne, o gênero é um que recompensa a paciência e a apreciação do espectador com esses momentos, que aparecem aos poucos, espalhados por um filme cuja arte está nos detalhes da fotografia, edição e atuações.

Dos assovios e cordas leves da trilha incidental de Justin Hurwitz, que complementa as canções originais da dupla Benj Pasek e Justin Paul, até as cores vivas, neons e simetrias da fotografia de Linus Sandgren, passando pelo trabalho espirituoso de Mary Zophres no figurino, tudo em La La Land remonta a essa era dos musicais antigos. Chazelle adiciona uma crítica à modernidade cínica, que parece contaminar colegas diretores de sua geração, no roteiro, e o resultado da mistura é uma obra-homenagem que encontra uma forma engenhosa de não se tornar analógica.

Talvez a performance de Emma Stone seja mesmo o elemento em que a magia do filme fique mais óbvia. Apesar do esforço de Ryan Gosling, é óbvio que ela é a estrela de La La Land, e não é só em sua qualidade e carisma que ela se destaca, mas sim na mistura delicada de passos de dança bem coreografados e uma espontaneidade impossível de fabricar. Por toda a sua excelência técnica, Stone e o filme que ela protagoniza triunfam mesmo graças a forma como conseguem encontrar em si mesmos a contradição que sempre foi fundamental ao cinema, uma forma de arte tão irremediavelmente artificial, e tão absurdamente tocante e fundamental mesmo assim. La La Land acredita na alma que encontramos dentro da teatralidade, do plástico, do digital – e se você não acredita também, bom, o que está fazendo aqui?

✰✰✰✰✰ (5/5)

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La La Land: Cantando Estações (La La Land, EUA, 2016)
Direção e roteiro: Damien Chazelle
Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, Callie Hernandez, Rosemarie DeWitt, J.K. Simmons, Jason Fuchs, Finn Wittrock, John Legend
128 minutos

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