12 de jan de 2017

Review: Sob o controle de Denis Villeneuve, A Chegada só é épico em sua emoção

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por Caio Coletti

Há poucos meses atrás, finalmente me convenci a assistir Sicario, filme mais recente do diretor Denis Villeneuve. A partir de um roteiro inteligente e cínico de Taylor Sheridan, o diretor canadense criou um épico árido, brutal e complexo, à altura da história – com a ajuda do diretor de fotografia Roger Deakins, Sicario é  de belamente seco, e espetacularmente triste. Quando entrei no cinema para minha sessão de A Chegada, novo filme do cineasta, a sensação dada pelos trailers e pela divulgação em torno do filme era que essa seria uma ficção científica naquela mesma veia de realismo e pragmatismo, usando sua plasticidade para envolver o espectador em uma história destrutiva. Não foi isso que eu encontrei.

A Chegada é maior, mais passional e melhor que Sicario. É um filme recheado de alma, cuja tristeza existe dentro de um ambiente de celebração do espírito humano e suas intrincadas e complicadas decisões e relações. É um filme sobre comunicação, apropriadamente, e como ela cria e destrói pontes entre nós. É a história de Louise (Amy Adams), uma linguista contratada pelo governo americano para lidar com a chegada de uma nave alienígena no planeta. O estranho objeto voador em questão é apenas um de muitos que aterrissaram ao redor do mundo, e Louise recebe a ajuda do matemático Ian (Jeremy Renner) para tentar se conunicar com os aliens.

O que Villeneuve empresta de seus outros filmes aqui é a sensação incômoda de que algo está fora do lugar. Por meio de sugestões e climatizações (na fotografia e na trilha-sonora, por exemplo), o diretor nos prende em um ambiente que por vezes parece claustrofóbico, nos fazendo viver na cabeça de sua protagonista enquanto noções de tempo e espaço se misturam. Mérito à edição esperta de Joe Walker, à fotografia sóbria de Bradford Young e especialmente ao roteiro de Eric Heisserer, que costura uma protagonista feminina poderosa por sua compreensão daqueles ao seu redor e pequenos atos de bravura.

Pouco seria de A Chegada, no entanto, sem Amy Adams. Ótimos intérpretes que são, coadjuvantes como Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg e Tzi Ma são apagados pela presença efervescente de Adams em tela, agarrando um papel que usa e abusa a sua melhor característica como atriz: a reatividade. O rosto de Adams é expressivo e fascinante mesmo enquanto ela só tenta entender a linguagem dos alienígenas ou explica termos técnicos para os militares que a acompanham na missão. É óbvio que, com seis indicações ao Oscar (pode apostar na sétima esse ano), Adams é uma das melhores de sua geração – o que A Chegada faz perceber é que ela pode muito bem ser a melhor, mesmo que seja só em “tirar leite de pedra”.

Temperamental e controlado, A Chegada entrega tudo o que o espectador menos esperaria da “grande ficção científica do ano”. Gravidade, A Origem, Interestelar e outros grandes filmes nos ensinaram a esperar épicos com significados profundos e metafísicos, que exploravam o universo e a nossa relação com eles, na ficção contemporânea. Ao invés disso, A Chegada só é épico em sua emoção, e volta os olhos para as nossas escolhas, percepções e falhas muito mais do que para a forma como nos relacionamos com o mundo – é um filme que usa de sua reviravolta de trama para aprofundar a análise muito humana que faz de sua protagonista e da corajosa decisão que a define, lá no final do filme.

Nas mãos de Denis Villeneuve, o filme entrega essa “curva” emocional com controle absoluto, tecendo cenas memoráveis pelo caminho. A grande virtude do canadense como cineasta talvez seja o absoluto domínio que ele tem do ambiente quando está contendo uma história – de forma pouco usual no cenário cinematográfico atual, fértil diretores/autores, Villeneuve está sempre servindo à trama, e à melhor forma de nos envolver nela. Em A Chegada, o efeito é absoluto: o espectador se perde dentro da tela, e o suspiro quando os créditos sobem é tanto de satisfação quanto de lamento por tudo ter acabado.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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A Chegada (Arrival, EUA, 2016)
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Eric Heisserer, baseado em conto de Ted Chiang
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Tzi Ma
116 minutos

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