23 de fev de 2017

Diário de filmes do mês: Fevereiro/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

lion

Lion: Uma Jornada Para Casa (Lion, Austrália/EUA/Inglaterra, 2016)
Direção: Garth Davis
Roteiro: Luke Davies, baseado no livro de Saroo Brierley
Elenco: Dev Patel, Rooney Mara, Nicole Kidman, David Wenham, Sunny Pawar
118 minutos

O diretor Garth Davis, que faz sua estreia em longas-metragens com Lion: Uma Jornada Para Casa, tem formação no mercado de comerciais. A superfície polida de seu filme deixa transparecer esse passado, assim como a escolha de tratar a primeira parte da história de Saroo (quando criança, interpretado por Sunny Pawar) de forma linear. Mais para frente no filme, Davis brinca com o roteiro de Luke Davies (Candy), costurando memórias e sentimentos de maneira hábil, que talvez faça o espectador lamentar o potencial perdido pela primeira metade. Trata-se de uma reclamação mesquinha, no entanto, já que essa escolha criativa pouco inspirada é o único passo em falso em um drama perfeitamente brilhante. A história acompanha o garotinho indiano que se perde da família ao dormir dentro de um trem e acordar em uma região estranha do país – adotado por uma família australiana e crescido, Saroo (Dev Patel) começa a procurar suas origens utilizando o Google Earth, então uma novidade tecnológica. Trata-se de uma história real, adaptada pelo roteirista Davies de um livro de memórias do próprio Saroo Brierley, e é bacana ver como o filme molda as temáticas dessa história com habilidade, analisando a relação do protagonista com aqueles a sua volta conforme a obsessão por encontrar a família se desenvolve, tomando conta de sua vida.

Lion busca a compreensão dos motivos e sentimentos de todos seus personagens com afinco, e o diretor Davis confia em seus atores para expressar as complexidades das relações que vemos em tela. Dev Patel entrega a atuação de sua carreira como o Saroo adulto, exalando uma determinação tranquila e uma confiança humanizada que o torna muito real para o espectador atento. De sua forma tipicamente transparente, Nicole Kidman domina as cenas em que está presente com autoridade, navegando por emoções complicadas para representar de forma genuína uma mãe adotiva com propósito e pulso firme. Envolvidos por uma bela fotografia, adepta de ambientes iluminados e fascinada pelas imperfeições dos rostos de seus atores (obra de Greig Fraser, que também assinou Rogue One), esses atores e aqueles a sua volta criam um filme inteligente, que foge da pieguice e encontra emoção genuína em sua história.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

hacksaw

Até o Último Homem (Hacksaw Ridge, Austrália/EUA, 2016)
Direção: Mel Gibson
Roteiro: Robert Schenkkan, Andrew Knight
Elenco: Andrew Garfield, Hugo Weaving, Teresa Palmer, Vince Vaughn, Sam Worthington, Richard Roxburgh
139 minutos

Pode parecer brincadeira, mas é verdade: para fazer cinema de guerra, é preciso sutileza. Quando Steven Spielberg nos colocou no centro do furacão do Dia D na cena de abertura de O Resgate do Soldado Ryan, é claro que explosões, violência e sangue eram necessários para comunicar o verdadeiro horror da guerra – no entanto, é o equilíbrio delicado arquivado pelo diretor, entre mostrar e explorar essa violência, que faz a cena (e o filme, como peça moral de cinema) funcionar. Mel Gibson é muitas coisas, pessoalmente e profissionalmente, mas sutil absolutamente não é uma delas. Em Até o Último Homem, celebrado por suas cenas de batalha, o diretor que nos deu A Paixão de Cristo encara cada ato de barbaridade como um obstáculo a mais para ultrapassar, seja a fim de fazer auto-propaganda e reabiltar sua imagem, ou a fim de sublinhar a mensagem essencialmente pró-guerra do filme. A relação do cinema americano com a guerra é complicada porque a relação dos EUA com a guerra também é – em Até o Último Homem, no entanto, sobra pouco espaço para questionamentos da moral, da validade ou do real efeito do conflito nos homens que o enfrentam. Isso é especialmente decepcionante porque a história de Desmond Doss se prestava a essa reflexão mais marcantemente que a maioria das tramas de guerra.

Doss se alistou no exército durante a Segunda Guerra Mundial a partir de um senso de reponsabilidade com seu país, mas se recusou a sequer tocar em armas de fogo durante seu treinamento e, mais tarde, sua atuação contra as tropas japonesas. Como socorrista em campo de batalha, salvou centenas de soldados aliados (e inimigos!) sem nunca disparar um tiro sequer, e foi o primeiro objetor a ganhar a medalha de honra do exército americano. Na visão miópica de Gibson e seus roteiristas, no entanto, as moralidades complicadas desse personagem são reduzidas a um vago senso de religiosidade, por mais que Andrew Garfield genuinamente se esforçe para imbui-lo de personalidade tridimensional.

A impressão que fica é que Gibson colocou pouco ou nenhum pensamento concreto na história e desenvolvimento de Até o Ùltimo Homem, e o cinismo dessa sua “volta por cima” acaba passando como um insulto aos personagens reais que retrata. Nem o sempre excelente Hugo Weaving, na pele do pai de Desmond, consegue salvar esse filme da completa mediocridade.

✰✰✰ (2,5/5)

monster

Sete Minutos Depois da Meia-Noite (A Monster Calls, EUA/Espanha, 2016)
Direção: J.A. Bayona
Roteiro: Patrick Ness, baseado no seu próprio livro
Elenco: Lewis MacDougall, Sigourney Weaver, Felicity Jones, Toby Kebbell, Liam Neeson, Geraldine Chaplin
108 minutos

“Eu me lembro perfeitamente da minha infância… Eu sabia de coisas terríveis”. A famosa frase do escritor Maurice Sendak, autor de Onde Vivem os Monstros, é perfeita para definir um tipo de fantasia infanto juvenil que parece cada vez mais perdida. Com tendências góticas em sua temática (e por vezes visual), esse tipo de fantasia usa os elementos impossíveis para conversar sobre temas muito reais, e busca imputar às crianças ou jovens adultos da história uma consciência maior da situação que as cerca. Sete Minutos Depois da Meia-Noite, adaptado do livro de Patrick Ness pelo próprio autor, é exatamente esse tipo de fantasia – acompanhamos o jovem Conor (Lewis MacDougall), que vive com a mãe doente (Felicity Jones) e sofre bullying na escola. Certa noite, ele é visitado por um monstro em forma de árvore gigante (Liam Neeson), que lhe conta três histórias a fim de ajudá-lo a processar seu próprio luto conforme a doença da mãe toma uma direção trágica. Assim como fez com O Impossível e O Orfanato, o talentoso diretor J.A. Bayona nunca perde o coração do filme de vista, mas encontra espaço para o trabalho criativo genioso de sua equipe brilhar, especialmente nas belíssimas sequências de animação que ilustram as histórias contadas pelo monstro.

As atuações do trio principal, formado por MacDougall, Jones e Sigourney Weaver (como a severa avó do menino), estão no cerne da reflexão do filme sobre luto em todas as suas facetas e dimensões. O jovem MacDougall é capaz de expressar a fúria contida de Conor com maestria, e a tristeza intrínseca de uma situação da qual ele, dolorosamente, tem plena consciência. Jones ganha a atenção do espectador com facilidade em sua atuação fragilizada e emocional, enquanto Weaver toma um caminho mais complicado, e constrói a personagem de dentro para fora, se revelando aos poucos para o espectador. Há anos que a atriz não tinha uma oportunidade de flexionar os músculos dramáticos em uma história tão rica – após ver Sete Minutos Depois da Meia-Noite, é impossível negar que ela fez muita falta.

Esse tipo de fantasia também faz falta – em um mundo de cinema comercial em que os filmes infantis e juvenis começam a redescobrir que seu público é capaz de absorver e entender mais do que eles poderiam esperar, Sete Minutos Depois da Meia-Noite é uma piéce resistance que encanta, emociona e marca a memória de forma definitiva.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

trolls

Trolls (EUA, 2016)
Direção: Walt Dohrn, Mike Mitchell
Roteiro: Jonathan Aibel, Glenn Berger
Elenco: Anna Kendrick, Justin Timberlake, Zooey Deshanel, Christopher Mintz-Plasse, Christine Baranski, Russell Brand, Gwen Stefani, John Cleese, James Corden, Jeffrey Tambor, Quvenzhané Wallis, Rhys Darby
92 minutos

Há algo de marcantemente artístico na forma como Trolls é realizado, ainda que seu roteiro não denuncie. A estridentemente colorida aventura animada da Dreamworks encontra em seus rápidos 92 minutos momentos de pura genialidade visual, tudo enquanto conta uma história previsível, ainda que carregando uma mensagem positiva, baseada em uma linha de brinquedos que deixou de ser popular há pelo menos duas décadas. A trama acompanha a Princesa Poppy (Anna Kendrick), uma animada troll, uma raça de pequenos seres capazes de infinita alegria e musicalidade, enquanto ela tenta salvar seus amigos dos bergens, monstros que só conseguem sentir alegria ao comer trolls. Poppy tem a ajuda de Branch (Justin Timberlake), o único troll pessimista de todo o vilarejo, e a partir daí está montada a moral manjada sobre encontrar a felicidade dentro de si, e não nas circunstâncias que o cercam. As boas sacadas cômicas do roteiro são quase sempre concentradas na personagem Bridget (Zooey Deschanel), uma bergen apaixonada pelo príncipe de seu reino que os trolls acabam ajudando em troca da vida de seus amigos capturados.

Versões anêmicas de músicas reconhecíveis aparecem durante o filme, incluindo (é claro) o clássico “True Colors”, de Cyndi Lauper, mas Trolls não parece comprometido de verdade em ser um musical. As poucas canções originais são usadas em momentos marcantes do filme, incluindo a ótima “Get Back Up Again”, escrita pela dupla Benj Pasek e Justin Paul (mesma do filme La La Land) e performada com gosto por Kendrick. Visualmente, o filme da DreamWorks é um banquete, e musicalmente tem seus momentos marcantes, mas a verdade é que Trolls passa pelo espectador como uma leve brisa, que desaparece da memória assim que para de soprar. Profundidade definitivamente não é o forte aqui.

✰✰✰ (3/5)

elle

Elle (França/Alemanha/Bélgica, 2016)
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: David Birke, baseado no livro de Philippe Dijan
Elenco: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Virginie Efira, Judith Megra, Christian Berkel
130 minutos

É muito óbvio o quanto Paul Verhoeven se diverte atrás das câmeras. O lendário e subversivo mestre holandês entrega uma obra deliciosamente pervertida com Elle, mas em um sentido muito mais profundo do que parece. Parte significativa disso é Isabelle Huppert, que se alia ao diretor para transformar um roteiro básico, que explora violência e sexo com o gosto de um filme B americano, em uma história mais complexa de libertação através desses elementos “tabu” imbutidos na trama. Huppert interpreta Michéle LeBlanc, bem-sucedida diretora de uma empresa de games que, certo dia, tem sua casa invadida e é estuprada pelo invasor. Com receio de envolver a polícia no acontecido graças ao seu passado como filha de um conhecidíssimo assassino em série, Michéle tenta descobrir a identidade de seu estuprador sozinha, e se vingar dele de maneira perversa (ou quase isso, mas não quero estragar as surpresas do filme). Na direção, Verhoeven tira prazer da forma como subverte nossas expectativas de tratamento de determinados temas e emoções, se aliando à direção de fotografia (de Stéphane Fontaine) e à trilha sonora (de Anne Dudley) para imputar um tom de comédia de humor negro aos procedimentos, sem perder de vista, ao mesmo tempo, os desenvolvimentos dramáticos que desenham os arcos de personagem do filme.

Huppert triunfa menos pela frieza da personagem, e mais pelo entendimento psicológico que procura trazer a ela, misturando indignação, prazer, frustração e autoridade na mesma mulher, e às vezes no mesmo olhar. Ao seu lado, Anne Consigny arquiva uma interpretação subestimada como a melhor amiga de Michéle, Anna, com quem a personagem cultiva talvez a relação mais significativa de sua vida – servir como apoio para Huppert e ainda conseguir definir decisivamente sua personagem não é missão para qualquer atriz, e Consigny faz maravilhas com seu pouco tempo em tela. O filme é, essencialmente, a história de ambas, e um tratado sobre a forma como a presença feminina domina e molda a nossa sociedade de forma decisiva, mesmo que a opressão sistêmica do machismo queira negar essa realidade. Com desejos complicados e relações difíceis com o mundo ao seu redor, Elle mostra personagens femininas que só encontram compreensão umas com as outras.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

7

Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven, EUA, 2016)
Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: Richard Wenk, Nic Pizzolatto, baseados no roteiro original de Akira Kurosawa, Shinobu Hashimoto, Hideo Oguni
Elenco: Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Vincent D’Onofrio, Byung-hun Lee, Manuel Garcia-Rulfo, Martin Sensmeier, Haley Bennett, Peter Sarsgaard, Luke Grimes, Matt Bomer
133 minutos

Sete Homens e Um Destino é um clássico do faroeste americano por muitos motivos, e o remake comandado por Antoine Fuqua não tenta reproduzir nenhum deles. Essa é talvez a decisão mais sábia tomada pelos roteiristas Richard Wenk e Nic Pizzolatto, que preferem modernizar a narrativa ao retratar o Velho Oeste americano de forma mais realista, misturando etnias entre os sete protagonistas e abordando relações de poder entre classes diferentes em um EUA pós-Guerra Civil. A ideia aqui é retratar o mundo do western como um de homens despedaçados por traumas de um conflito violento, que procuram um senso de justiça mesmo quando parecem efetivamente fugir dela – nas mãos hábeis de Fuqua, Sete Homens e Um Destino é também um filme de ação de primeira. A trama é basicamente a mesma do original: uma jovem viúva contrata um caçador de recompensas, que por sua vez reúne um time de foras-da-lei e pistoleiros variados a fim de salvar uma pequena cidade do domínio de um milionário megalomaníaco que quer as terras para si.

A diferença chave aqui é que não só os heróis não são sete homens brancos, como o filme empresta mais agência à viúva em questão (interpretada por Haley Bennett), e o vilão da vez é a ganância corporativa, e não um bando de latinos sem rosto. A construção dos personagens é ágil e impressiona – Vincent D’ONofrio e Ethan Hawke, especialmente, entregam performances deliciosamente teatrais e no ponto, confluindo bem com o estilo ultra-observador de Fuqua na direção. Fotografia e trilha-sonora fazem o seu melhor para apresentar uma mistura de clássico e inovador em termos de faroeste, e o resultado é um épico de ação inteligente, artigo cada vez mais raro em Hollywood. Está na hora de começarmos a apreciá-los quando eles aparecem.

✰✰✰✰ (4/5)

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