14 de fev de 2017

Review: O luto no cinema nunca foi tão real quanto em Manchester à Beira-Mar

manchester

por Caio Coletti

É um terrível clichê da crítica cinematográfica dizer que o maior trunfo de um filme, especialmente um filme dramático, é sua honestidade. Em Manchester à Beira-Mar, no entanto, essa parece ser a definição certa – o filme de Kenneth Lonergan cativa o público porque, apesar de sua trama cruel e deprimente, não se permite enfeitar ou mentir sobre o estado emocional e as circunstâncias de seus personagens. O luto que permeia Manchester como uma praga não é mais desesperador por causa disso, mas sim mais contido, ajustado às realidades pragmáticas e humanidades falhas que cercam os personagens. Em sua honestidade de observador da condição humana, Lonergan criou um filme em que esse luto existe de forma mais obíqua, e pode ser analisado mais de perto, do que em qualquer obra do cinema americano na memória recente.

A trama do filme acompanha Lee Chandler (Casey Affleck), um faz-tudo em um subúrbio de Boston que tem que voltar para sua Manchester natal a fim de cuidar do sobrinho, Patrick (Lucas Hedges), que acaba de perder o pai, irmão de Lee. Ao chegar à Manchester, além de precisar lidar com a sua perda mais recente, Lee tem que encarar erros e tragédias de seu passado, ligadas a sua ex-esposa, Randi (Michelle Williams). Lonergan encontra o coração de sua história em irritações e incômodos simples, ao invés de encontrá-lo em grandes momentos emocionais – a sensação da perda de alguém querido aparece em detalhes banais, em uma tensão que existe muito mais no ambiente corriqueiro da vida de quem foi deixado para trás do que em gestos grandiloquentes de desespero. Manchester é mais um blues arrastado, comtemplativo, do que um soul urgente, e qualquer um que passou por situação semelhante poderá se identificar com isso.

Por essa própria natureza do roteiro de Lonergan, é difícil imaginar outro ator no papel de Lee além de Casey Affleck. O irmão mais novo do atual Batman, Ben Affleck, sempre foi um intérprete de sutilezas e composições essencialmente físicas (vide sua indicação anterior ao Oscar por O Assassinato de Jesse James), e em Lee ele encontra o personagem perfeito para explorar uma emoção reprimida não por teimosia, mas por instinto de sobrevivência. As inúmeras premiações dispensadas à Affleck são um paradoxo, visto que sua atuação é indiscutivelmente impressionante, mas o histórico pessoal do ator, incluindo várias acusações de assédio sexual que resultaram em acordo judicial e pagamento de multas, faz questionar a ética de entregar mais troféus a ele. O filme e a atuação fazem com que seja fácil esquecer que é Affleck a pessoa que vemos na tela, mas quando os créditos sobem, devemos continuar esquecendo?

Ao redor do protagonista, um filme excepcional é construído. Não só Lonergan estrutura seu roteiro de forma inteligente, revelando aos poucos a dor e a história de Lee,  como também arquiva uma direção de tirar o fôlego, inteligente na forma como escolhe firmar o espectador na posição de observador dos acontecimentos, e não mergulhá-lo no mundo que constrói. Ao lado da diretora de fotografia Jody Lee Pipes, Lonergan escolhe filmar os personagens de longe em vários momentos-chaves da trama, especialmente no início do filme, evitando o close-up no rosto dos atores – por falar nisso, vale ficar de olho na participação especial do diretor, que interpreta um pedestre inconveniente que tenta dar lições de paternidade para Lee em certa cena (quase) divertida do filme.

Pode parecer sacrilégio, mas a abordagem meio fugral de Manchester à Beira-Mar em relação ao luto, a mesma que produz o clima opressivo do filme, também o posiciona, curiosamente, como uma cuidadosa comédia de observação. O filme de Lonergan não é engraçado, por assim dizer, mas tem um olho aguçado para os constrangimentos e restrições do dia-a-dia que, por vezes, são realçados tanto pelo diretor quanto pela edição magistral da talentosíssima Jennifer Lame (Frances Ha), que dá ritmo ao filme com intervenções discretas e cortes rápidos em certas cenas. Poucos editores cinematográficos em atividade tem tanta assinatura própria quanto Lame, que é capaz de criar movimento mesmo onde ele não existe, comunicando o ponto de que, mesmo sob a interminável tristeza que retrata, Manchester é um filme terrivelmente vivo.

A única grande explosão de emoção no filme pertence à sempre excepcional Michelle Williams, uma das melhores atrizes de sua geração, que entrega em uma cena-chave o exasperamento inarticulado de um luto que nunca deixa de existir na consciência de quem passa por qualquer tipo de tragédia. Manchester à Beira-Mar não entrega soluções fáceis – seria uma traição inimaginável da filosofia de honestidade pela qual parece ter sido feito. Ao invés disso, nos permite enxergar um tipo pálido de esperança que todos nós já fomos obrigados a encarar de frente uma vez na vida, e deixa que nos agarremos a ela como se fosse um bote salva-vidas, porque é exatamente isso que ela é.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea, EUA, 2016)
Direção e roteiro: Kenneth Lonergan
Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams, C.J. Wilson, Tate Donovan, Matthew Broderick
137 minutos

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