25 de mar de 2017

Não é mais whitewashing: No persistente racismo de Hollywood, o buraco agora é mais embaixo

death noteNat Wolff em Death Note, adaptação da Netflix para o anime japonês

por Caio Coletti

Nos próximos meses, veremos duas adaptações hollywoodianas de materiais originalmente japoneses chegarem ao público. A Paramount Pictures lança em 30 de março, no Brasil, A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell, e a Netflix estreia sua adaptação de Death Note em 25 de agosto. Ambas as produções são versões com atores para animes marcantes da tradição oriental, originalmente criados por artistas japoneses e cuja mitologia e formato devem muito à cultura em que nasceram. Mais importante ainda que isso, ambos tem personagens que foram claramente desenhados, nomeados e/ou concebidos para serem japoneses – e ambos vão chegar aos cinemas com atores caucasianos nos papeis principais.

O termo americano whitewashing tem se tornado habitual em dicussões on-line sobre cultura pop nos últimos anos. Como qualquer expressão apropriada pela internet, a definição de whitewashing se ampliou e se modificou com o tempo, sendo usada por movimentos sociais para definir uma série de situações racistas persistentes na indústria do entretenimento. Originalmente, no entanto, o whitewashing definia a prática de escalar atores caucasianos para interpretar personagens de outras etnias – prática essa que pode parecer morta hoje em dia, mas vale lembrar que filmes recentes como Êxodo: Deuses e Reis (2014) e Deuses do Egito (2016) escalaram atores americanos e britânicos para interpretar personagens advindos do Oriente Médio.

emmaEmma Stone em Aloha, como uma personagem asiática

É uma mania hollywoodiana que é motivada, como tudo na terra do cinema, pelo dinheiro. A lógica por trás de decisões como essas dentro de um grande estúdio americano é fácil de entender: a sufocante maioria dos astros e estrelas de cinema são brancos, e historicamente é um risco fazer um filme de US$100 milhões ou mais sem um grande astro ou estrela no elenco. No entanto, apesar desse tipo de decisão sempre ter sido moralmente condenável, agora as consequências tem sido sentidas também na bilheteria – Êxodo, Deuses do Egito e outros casos similares, como a comédia romântica Aloha (com Emma Stone no papel de uma personagem asiática), tem afundado comercialmente após acusações de whitewashing.

Há exceções, a maioria delas motivada pela força de uma franquia, mas a verdade é que Hollywood está começando a perceber que o whitewashing deixou de ser uma decisão comercial inteligente. Essa mudança cultural coloca executivos e produtores em uma posição ainda mais radical, divididos entre princípios artísticos/sociais e preocupações comerciais, e a solução que esses profissionais tem encontrado é a de sublimar o seu instinto de whitewashing em outras circunstâncias e justificativas – e a ideia aqui não é aliviar a culpa deles, e sim perceber que a apropriação e apagamento de histórias e profissionais não-caucasianos em Hollywood ocorre de formas muito mais sutis do que aquela que identificamos mais facilmente.

Na adaptação de Death Note, por exemplo, a ideia é que a trama original do anime, lançado em 2006, teria sido transportada do Japão para Detroit (EUA), o que justificaria a decisão de escalar atores americanos, incluindo o afro-americano Lakeith Stanfield na pele do detetive L, para o elenco. O protagonista Light Yagami, um adolescente que encontra um caderno mágico capaz de matar qualquer pessoa que tenha seu nome escrito nele, virou Light Turner, e ganhou o rosto de Nat Wolff, conhecido pelos papeis em A Culpa é das Estrelas e Cidades de Papel. Vale lembrar também que o anime já ganhou versão elogiada e muito bem sucedida com atores no Japão, estrelada por Tatsuya Fujiwara e Ken’ichi Mastuyama – a necessidade de adaptar a história para um contexto americano e escalar atores (em sua maioria) caucasianos fala a uma racionalização do whitewashing que não é nova, mas parece cada vez mais presente.

Algo parecido aconteceu recentemente com Doutor Estranho, por exemplo. O personagem d’O Ancião, nos quadrinhos originais, era um homem asiático que ensinava ao americano Dr. Stephen Strange as artes mágicas em um templo místico chamado Kamar Taj. Embora tenham mantido o nome e a localização tibetana do templo, os roteiristas da Marvel Studios transformaram o Ancião em Anciã, e escalaram a caucasiana Tilda Swinton para o papel. A racionalização dessa vez é que o personagem não é o mesmo dos quadrinhos, e que O Ancião é muito mais um título do que uma pessoa ou personagem específicos – no caso, essa “encarnação” que vemos no filme é uma mulher celta, e não um homem asiático. A Marvel ainda argumentou que a mudança de etnia os auxiliava na missão de fugir do estereótipo cansado do místico asiático, visto que O Ancião havia sido criado décadas atrás, quando não havia essa preocupação social.

doutorTilda Swinton como A Anciã em Doutor Estranho

A ginástica retórica esconde que, ao invés de aprofundar e dar embasamento para O Ancião, a fim de fazê-lo mais do que um estereótipo, os roteiristas preferiram trocar sua etnia. Mais curioso ainda é que, em Doutor Estranho, A Anciã de Swinton é uma personagem complicada, parte fundamental do tema no cerne do filme, que é sobre as virtudes de uma liderança pragmática – como personagem feminina, é de longe uma das mais bem construídas e complexas do universo Marvel, então por que não poderia ser asiática? Os roteiristas de Doutor Estranho se preocuparam em quebrar estereótipos com Wong, que era visto como “criado” de Dr. Strange nos quadrinhos, mas preferiram trocar a etnia da Anciã? É um disfarce mal ajeitado para uma decisão mercadológica – excêntrica ou não, Tilda Swinton ainda é um grande nome (e mais uma vencedora do Oscar, diga-se de passagem) para o rol da Marvel.

Aliás, é oportuno falar em Doutor Estranho, porque a narrativa de 2016 da Marvel no cinema guarda semelhanças com aquela que a editora costurou na TV em 2017, com Punho de Ferro, e com uma outra prática racista muito comum, muito sutil e muito diferente. A história do white savior, como é chamada por estudiosos dos clichês e padrões narrativos da cultura pop, apresenta um personagem caucasiano que, por circunstâncias extraordinárias, é introduzido e integrado a uma cultura não-caucasiana e, mostrando aptidão, atinge o posto de maior honra dentro dessa cultura (ou a salva da ameaça de, geralmente, outros personagens caucasianos). Filmes como O Ùltimo Samurai (2003) e A Grande Muralha (2016), além de qualquer adaptação do personagem Tarzan, são exemplos claros dessa prática, que tem o efeito de apagar heróis e lendas de outras culturas em favor de um protagonista “identificável” para o público caucasiano.

Doutor Estranho e A Grande Muralha mascaram seus aspectos racistas, como fez o Peter Pan de 2015 ao escalar Rooney Mara como a princesa indígena Tiger Lily, com a falácia de que suas histórias e comunidades são “multiculturais”, uma palavra em voga no mundo globalizado. A inserção de personagens asiáticos e de outras etnias nas margens do protagonista caucasiano serve como “desculpa” para a narrativa nociva que esses títulos que reproduzem. O mesmo tem acontecido com Ghost in the Shell – embora os traços do anime original sejam menos definitivamente asiáticos que outros exemplos do gênero, a escalação de atores caucasianos sob a justificativa de “essa não ser uma história japonesa, e sim global” é rasa, no mínimo, e abertamente cretina, no máximo.

scarlett-johanson-ghost-in-the-shell-majorScarlett Johansson (à esquerda) no novo Ghost in the Shell, e a Major original do anime de 1995

A Major Motoko Kusanagi, no anime original de Ghost in the Shell, lançado em 1995, é uma ciborgue em um mundo distópico lutando contra questões profundas de identidade que cobrem gênero, sexualidade, livre arbítrio e memória. É uma mulher asiática em uma história passada em um ambiente marcadamente asiático, inspirado por Hong Kong – ambiente este que será transformado em uma metrópole cosmopolita no filme de Rupert Sanders, incluindo personagens para o americano Michael Pitt, a francesa Juliette Binoche e o dinamarquês Pilou Asbaek. É whitewashing motivado por questões financeiras, mas agindo sob o disfarce de uma enganosa “globalização” da história, como se o impacto do Ghost in the Shell original já não tivesse sido sentido pela ficção científica e produção cinematográfica do mundo todo. Globalizar uma história não significa “branqueá-la”, e sim apreciá-la com respeito à cultura que a criou.

Essa é a questão maior que algumas pessoas parecem não entender na discussão da “apropriação cultural”, aliás. O intercâmbio de elementos e artigos próprios de uma determinada etnia é positivo a partir do momento em que não desfigura, prejudica ou diminui o impacto da cultura original – não é difícil entender porque a aclamação de Elvis Presley o como o “o rei do rock” foi nociva para o legado dos músicos negros que faziam rock antes dele, ainda que tenha sido positiva para o seu sucesso comercial imediato. Trazer histórias criadas em culturas diversas para o mundo ocidental caucasiano substituindo os heróis e vilões deles pelos nossos é a saída rápida que produtores encontraram para continuar perpetuando uma hegemonia de astros, estrelas e narrativas brancas no cinema e na TV.

Não é mais whitewashing, exatamente, mas ainda precisamos ficar de olho – e punir, na bilheteria, mais essa estratégia suja que denota não só mau-caratismo como covardia e preguiça criativa em uma indústria que precisa urgentemente fugir de todos esses vícios.

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