24 de mar de 2017

Review: 20 anos e um remake americano depois, Ghost in the Shell é mais atual do que nunca

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por Caio Coletti

Em expedientes 83 minutos, Ghost in the Shell consegue ser uma ficção científica mais profunda, completa e interessante que a enorme maioria das produções de sua época, e de hoje em dia também. Lançado 22 anos atrás e prestes a ganhar uma refilmagem (com atores) nos EUA, que tem enfrentado polêmica por escalar Scarlett Johansson e outros atores europeus e americanos em papeis originalmente asiáticos, esse marco do anime e do cinema oriental como um todo faz o espectador cair de para-quedas em um mundo de regras e mitologias complicadas, que se revelam devagar com a progressão da trama. A refrescante falta de diálogos expositivos ou de um “ponto de vista do espectador”, um personagem a quem o novo mundo é apresentado para que nós mesmos nos acostumemos com ele, é o que faz do filme de Mamoru Oshii um clássico tão incômodo, premonitório e fundamental.

Nossa ostensiva protagonista e heroína é a Major Motoko Kusanagi, que trabalha para uma divisão governamental conhecida como Section 9. No futuro não muito distante apresentado pelo filme, a maioria das pessoas possui pelo menos partes biônicas em seus corpos, incluindo cérebros robóticos que um hacker, conhecido como Mestre dos Fantoches, costuma modificar para criar “soldados” controlados. Conforme a investigação da Section 9 sobre o vilão progride, as linhas de moralidade na trama ficam mais complicadas, e nenhum resumo faria justiça à costura complexa de temas e reviravoltas retiradas do mangá de Masamune Shirow. Ghost in the Shell foge de discussões óbvias e rasas sobre “a natureza da humanidade”, que contaminam todas as narrativas desse subgênero em particular da ficção científica, e é muito mais provocativo e interessante por isso.

Ao invés disso, o filme toca em questões delicadas que seriam de fato afetadas em um futuro como aquele que retrata – como toda e qualquer ficção científica de primeira, Ghost in the Shell investiga questões muito contemporâneas (mais ainda hoje do que 20 anos atrás) sob a luz de uma suposta impossibilidade. O filme formula questões sobre identidade de gênero, sexualidade, livre arbítrio, corrupção governamental e engenharia social, todas sob a luz de uma integração humano-tecnológica que, embora em um contexto diferente, é muito mais realidade do que ficção hoje em dia. Intrigando e incomodando o espectador que precisa se adaptar ao ritmo particular da narrativa, Ghost in the Shell é um desafio que merece ser enfrentado sem medo.

Auxiliando nessa adaptação, a trilha sonora de sintetizadores sonhadores de Kenji Kawai, que permeia os momentos de contemplação de um filme que não se preocupa em ser acessível ou recheado de ação, embora crie um leque de imagens icônicas quando se rende a ela. A fotografia de Hisao Sharai sublinha a profundidade e detalhismo do mundo construído pela narrativa, observando o arredor dos personagens com uma minúcia quase invasiva – junte isso a uma animação de traços deliberadamente retos e definidos, e o resultado é um visual que absorve o espectador sem precisar seduzi-lo. O momento de virada do filme talvez seja quando a Major Kusanagi enfrenta um dos “soldados” do Mestre dos Fantoches em uma região alagada e dilapidada da cidade onde a história se passa. Quieta, oblíqua, não objetivamente bela, mas ainda inegavelmente fascinante, a cena resume o filme em que se encontra com perfeição.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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O Fantasma do Futuro (Kôkaku Kidôtai, Japão/Inglaterra, 1995)
Direção: Mamoru Oshii
Roteiro: Kazunori Itô, baseado no mangá de Masamune Shirow
Elenco: Atsuko Tanaka, Akio Ôtsuka, Kôichi Yamadera, Yutaka Nakano, Tamio Ôki, Tesshô Genda
83 minutos

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