1 de mar de 2017

Review: Capitão Fantástico triunfa por ser uma história sincera em meio a dramas cínicos

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por Caio Coletti

Capitão Fantástico é o segundo filme da carreira do diretor e roteirista Matt Ross, que é mais conhecido por seu trabalho em frente as câmeras em séries como Silicon Valley e Revolution. A inexperiência (e o foco nas atuações) aparecem na estrutura e estilização simples do filme, que se tornou talvez o grande queridinho da plateia indie durante o ano de 2016. Essa simplicidade, no entanto, curiosamente não aparece como obstáculo, e sim como virtude – até o momento em que os créditos rolam, Capitão Fantástico parece obstinado em se manter verdadeiro aos personagens falhos e complicados que criou, e aos cantos mais complexos da vida alternativa que eles levam. O roteiro de Ross não é sem cinismo, especialmente na forma como olha a doutrina “revolucionária” e “fora do sistema” da família central, mas na abordagem direta de sua direção esse ceiticismo passa como observação saudável e sincera de uma história única.

Nosso protagonista é Ben (Viggo Mortensen), que vive com seus seis filhos em um pedaço isolado de floresta, educando-os a sobreviver na natureza e dando-os um regime intelectual rígido e mínimo contato com a sociedade fora da esfera limitada da família. Sua parceira nessa vida costumava ser Leslie (Trin Miller), mas logo no começo do filme descobrimos que ela cedeu à depressão e acabou com sua própria vida. Embora os pais de Leslie deixem claro que Ben e os filhos não devem ir ao funeral da mãe, essa curiosa unidade familiar em busca de uma espécie de vindicação social mais baseada no individualismo do que na convivência parte em uma longa jornada pelas estradas dos EUA, descobrindo as sutilezas do amadurecimento e do mundo real conforme o encontram.

Embora Mortensen esteja realmente excepcional na pele do protagonista, o elenco todo de Capitão Fantástico brilha. Os jovens George McKay, Annalise Basso e Nicholas Hamilton se destacam entre os jovens que Ben precisa guiar por um mundo até então desconheido, e os papeis menores do filme, desempenhados por gente do calibre de Frank Langella, Ann Dowd e Kathryn Hahn, são todos escalados à perfeição. O estilo contido de Ross na direção esconde uma mão espetacular para os atores, realçando a sutileza de Mortensen, que elabora com fluidez e honestidade as emoções conflitantes de um pai de família e viúvo que busca entender quão verdadeiros eram os valores que passou para os filhos durante suas vidas inteiras.

Em seu cerne, Capitão Fantástico é sobre uma luta interna pela qual todos nós passamos, ou deveríamos passar. A ideia do roteiro hábil e simplista de Ross é mostrar que, quando nos entregamos a um ideal, por mais justo e importante que ele seja, muitas vezes perdemos a perspectiva do que podemos ser além dele. Ao mostrar a jornada de um pai e seus filhos em direção a essa realização, Capitão Fantástico toca fundo na humanidade falha das nossas escolhas, sem deixar de encontrar certa poesia perfeita dentro da ideologia única que nos é apresentada. Em um mar de dramas cínicos ou deterministas, o filme de Ross se destaca pela exaltação da beleza dentro da imperfeição humana – em seu realismo duro, ele ousa ser otimista e intimista. É uma realização e tanto.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Capitão Fantástico (Captain Fantastic, EUA, 2016)
Direção e roteiro: Matt Ross
Elenco: Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Shree Crooks, Charlie Shotwell, Trin Miller, Kathryn Hahn, Steve Zahn, Missi Pyle, Frank Langella, Ann Dowd
118 minutos

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