1 de mar de 2017

Review: Kubo e as Cordas Mágicas nos lembra que tudo é essencialmente uma história

kubo

por Caio Coletti

É fácil reduzir a arte de Kubo e as Cordas Mágicas a uma realização técnica, ou a uma frase-clichê de review cinematográfico que mal significa qualquer coisa. Sim, eu sei que “stop-motion é uma arte perdida”, e que pelo menos parte da beleza das produções da Laika está atrelada ao fato de que eles ainda realizam um trabalho artesanal de primeiríssima qualidade, e inspirador. No entanto, só isso não representa o tamanho, a importância e a poesia visual e narrativa de Kubo – de fato, não passa nem perto de representar. O filme do diretor Travis Knight é uma realização artística de tirar o fôlego não simplesmente por sua técnica, e sim pela forma delicada e magistral como a usa para criar uma das fábulas mais inesquecíveis do cinema contemporâneo.

Na trama, acompanhamos Kubo (Art Parkinson), um jovem contador de histórias que, ao tocar um instrumento misterioso de duas cordas, consegue fazer magia. Ele ganha alguns trocados na praça da cidade, perto de onde vive com sua mãe, que passa os dias em estado catatônico após um acontecimento traumático do passado. Quando um erro fatal de Kubo faz duas vilanescas irmãs-bruxas (ambas com a voz de Rooney Mara) aparecerem por lá, ele é transportado para um mundo mágico e precisa completar uma jornada, guiado por uma Macaca (Charlize Theron) e um Besouro (Matthew McConaughey), para salvar sua própria vida. O resumo acima não faz jus à trama bem enredada escrita por Marc Haimes e Chris Butler – Kubo é cheio de paralelos surpreendentes e costuras temáticas espertas, e, como toda grande história, precisa ser visto para ser entendido.

Essencialmente, no entanto, o filme é uma celebração do próprio ato de narrar. Nas mãos de Haimes e Butler, e nas icônicas imagens criadas por Knight e pelo diretor de fotografia Frank Passingham, Kubo e as Cordas Mágicas está aqui para nos lembrar que tudo, das nossas memórias ao jeito como encaramos o mundo, é pouco mais do que uma história que contamos para nós mesmos e para os outros. O filme não é ingênuo o bastante para sugerir que a reinvenção própria é possível de forma ilimitada por causa disso, mas advoga que podemos encontrar espaços para melhorar, descobrir e tecer beleza dentro de nossas histórias – mesmo as mais trágicas.

Com um estilo de diálogo direto que comunica a mensagem também ao público infantil, Kubo é extraordinariamente inventivo, encontrando constantemente novas maneiras de surpreender e encantar o público que mantem um olho atento para as imagens criadas pelo grupo criativo da Laika. Como de costume para o estúdio, essas imagens fogem do estilo “perfeito demais” da Disney e encontram uma personalidade única dentro da assinatura visual inconfundível do stop-motion. Em suma, Kubo e as Cordas Mágicas é um dos filmes (de animação ou não) mais artisticamente comprometidos e realizados do ano, com o potencial de viver prosperamente na memória afetiva de quem quer que lhe dê uma chance.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Kubo e as Cordas Mágicas (Kubo and the Two Strings, EUA, 2016)
Direção: Travis Knight
Roteiro: Marc Haimes, Chris Butler
Elenco: Art Parkinson, Charlize Theron, Ralph Fiennes, Brenda Vaccaro, Cary-Hiroyuki Tagawa, George Takei, Rooney Mara, Matthew McConaughey
101 minutos

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