25 de mar de 2017

Review: Vencedor de Sundance, Já Não Me Sinto Em Casa Nesse Mundo nunca se cansa de surpreender

idfahitwa

por Caio Coletti

Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo não é seu típico vencedor do prêmio principal do Festival de Sundance. O queridinho do festival independente americano de 2017 é uma experiência ousada de gênero que encontra sua primazia na forma como compõe linhas temáticas dramáticas (e sombriamente cômicas) por baixo de uma trama que, em última instância, tem cara de thriller B. Não deveria ser surpresa, já que o diretor e roteirista Macon Blair é mais conhecido pelos papeis em filmes como Ruína Azul e Sala Verde, ambos suspenses de alta tensão dirigidos por Jeremy Saulnier. No entanto, o filme de estreia de Blair tem cartas na manga o bastante para nos envolver em sua esperta reflexão sobre as relações interpessoais no século XXI.

Sem qualquer aroma de condescendência, Blair acompanha com um olhar afiado as desventuras de Ruth (Melanie Lynskey), uma enfermeira que está cansada de testemunhar comportamentos estúpidos da parte de todos ao seu redor – uma cena de Ruth no supermercado (e seu estacionamento) é especialmente efetiva em passar essa mensagem. Quando sua casa é assaltada, e ela perde seu notebook e as porcelanas de sua avó, Ruth se junta a um vizinho roqueiro excêntrico (Elijah Wood) em uma missão de vingança com as próprias mãos (ou quase isso). A graça e o drama de Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo vem do mesmo lugar, uma contraposição delicada de cinismo e encanto pelos detalhes e improbabilidades do mundo que retrata.

O coração do filme está com Lynskey, que entrega uma performance envolvente e genial na pele de Ruth. A frustração da personagem em tela é palpável, de sua linguagem corporal aos seus olhos dardejantes incrustados no rosto expressivo, quase sempre articulando alguma espécie de decepção ou conformação com o mundo selvagem e egoísta que a cerca. Nas mãos de Lynskey, no entanto, Ruth foge do esnobismo que poderia acabar sendo a marca da personagem, assim como o Tony de Elijah Wood foge da caricatura graças às sutilezas do subestimado ator. Ao redor deles, os coadjuvantes são desenhados com traços simplistas, mas o roteiro de Macon Blair é esperto o bastante para fazê-los críveis dentro da lógica ligeiramente offbeat do filme.

Decidido a não entediar o espectador, Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo toma caminhos improváveis e absurdistas conforme vai se aproximando do terceiro ato, e não apresenta soluções fáceis ou filosofias baratas no final. O filme de Blair eventualmente encontra esperança no mundo agressivo que retrata, mas é pelos caminhos mais escusos e surpreendentes que chega lá, sem abrir mão nem de seu fundamental realismo temático, nem de sua excentricidade tonal. O fato de que um diretor estreante consegue equilibrar tudo isso em uma comédia/drama/thriller de pouco mais de 90 minutos é extraordinário em si próprio, mas Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo justifica o status como titular do prêmio maior do Festival de Sundance tanto por sua técnica quanto por sua história, que merece ser ouvida, absorvida e deliciosamente apreciada.

✰✰✰✰ (4/5)

I Don't Feel at Home in This World Anymore - Still 1

Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo (I Don’t Feel at Home in This World Anymore, EUA, 2017)
Direção e roteiro: Macon Blair
Elenco: Melanie Lynskey, Elijah Wood, Gary Anthony Williams, Jane Levy, David Yow, Devon Graye, Christine Woods, Robert Longstreet
93 minutos

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