3 de mai de 2017

Diário de filmes do mês: Abril/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

mt

Monster Trucks (EUA/Canadá, 2016)
Direção: Chris Wedge
Roteiro: Derek Connolly
Elenco: Lucas Till, Jane Levy, Thomas Lennon, Barry Pepper, Rob Lowe, Danny Glover, Amy Ryan, Frank Whaley
104 minutos

A relação do cinemão americano com seus clichês mais tóxicos está deteriorando. Essa é a conclusão à qual um espectador esperto deve chegar ao fim de Monster Trucks, fracasso de bilheteria dirigido por Chris Wedge, conhecido pelo trabalho na animação A Era do Gelo, entre outros títulos do gênero. Aqui, ele encontra espaço para cenas de ação dinâmicas e demonstra seu domínio do trabalho de efeitos visuais, mas esbarra em um roteiro tão teimosamente inano e convencional que chega a doer. O responsável é Derek Connolly, que ascendeu à fama após Jurassic World, e enquanto a continuação da saga dos dinossauros tentava se disfarçar de pastiche hollywoodiano, Monster Trucks não está sob a mesma ilusão. Pelo contrário, o filme abraça as tradições mais irritantes do blockbuster, entre elas a construção de um protagonista masculino (e branco) cuja alta opinião de si mesmo é “justificada” por suas habilidades, mostradas como extraordinárias. Monster Trucks não está interessado em mostrar essa arrogância como defeito, mas em recompensá-la como um traço da tradição americana, exatamente como faz com os carrões bebedores de gasolina do título.

O protagonista Lucas Till vê seu carisma natural preso a esse personagem a quem não é solicitado nenhum arco de evolução ou amadurecimento – ele é Tripp, assistente de ferro velho em uma pequena cidade americana que tem a economia sustentada por uma empresa de exploração de petróleo. Após um acidente na perfuração do solo, curiosas criaturas aquáticas emergem, e uma delas se mostra amigável o bastante com o protagonista. A partir daí, a mistura de clichês e detalhes mal resolvidos é contagiosa de uma forma que nem mesmo a natural amabilidade do elenco (incluindo uma desafortunada Jane Levy, na pele da mal desenvolvida namoradinha do protagonista) consegue salvar. Ganha pontos pela direção, mas não vale o tempo que pede para o espectador investir nele.

✰✰✰ (2,5/5)

brazil

Brazil: O Filme (Brazil, Inglaterra, 1985)
Direção: Terry Gilliam
Roteiro: Terry Gilliam, Tom Stoppard, Charles McKeown
Elenco: Jonathan Pryce, Robert De Niro, Katherine Helmond, Ian Holm, Bob Hoskins, Michael Palin, Peter Vaughan, Kim Greist, Jim Broadbent
132 minutos

Em muitos sentidos, Brazil é o filme mais emblemático da carreira de Terry Gilliam, um dos grandes autores cinematográficos do século XX. O filme exemplifica as virtudes e defeitos da visão do diretor, sua excentricidade e sua aguda consciência social, assim como o seu gosto por uma direção de arte que lida com elementos kitsch do cinema de gênero clássico, produzindo quase sempre um cenário de dark fantasy muito peculiar. Assistir ao filme hoje em dia, mais de 30 anos depois de seu lançamento, no entanto, é também concluir que é uma obra prima incompleta. Como fábula futurista distópica sobre um estado travado por burocracia, o tempo o enfraqueceu um pouco – assim como enfraqueceu o romance central, um tanto raso e machista para os padrões atuais. Como exercício de estilo, no entanto, o filme continua um excitante passeio por uma mente única, pela visão difusa do futuro e da humanidade que Gilliam imprime às suas elaborações visuais, e por personagens tão idiossincráticos quanto inesquecíveis.

Jonathan Pryce, hoje em dia interpretando o Alto Pardal em Game of Thrones, brilha como o exasperado protagonista, Sam Lowry, um burocrata que se vê envolvido com um erro fatal da máquina governamental. Em seu caminho escuso por rebeldias absurdistas, conhece um “encanador clandestino” (Robert De Niro, hilário) e se apaixona por uma mulher misteriosa (Kim Greist). O pessimismo inerente das histórias distópicas contamina o roteiro de Gilliam, Tom Stoppard e Charles McKeown, mas o filme encontra originalidade nos detalhes com os quais imbui seu universo e sua narrativa – em última instância, é um conto psicodélico sobre uma sociedade em que as mais simples autonomias se tornaram ilegais.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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The Girl with All the Gifts (Inglaterra/EUA, 2016)
Direção: Colm McCarthy
Roteiro: Mike Carey, baseado em seu próprio livro
Elenco: Sennia Nanua, Gemma Arterton, Glenn Close, Paddy Considine, Anamaria Marinca
111 minutos

Abordagens originais no subgênero de zumbis são raridades mais de meio século depois de George A. Romero ter dado vida às criaturas pela primeira vez. The Girl with All the Gifts, que o autor Mike Carey adaptou para o cinema a partir de seu próprio livro, é uma dessas raridades. A história acompanha a jovem Melanie (a carismática estreante Sennia Nanua), que representa uma geração de crianças que nasceu infectada com o mesmo vírus que transformou quase toda a humanidade em vorazes devoradores de cérebros. Essas crianças, embora possuam semelhante fome por carne humana, não apresentam os sintomas que transformam adultos em criaturas vagantes e sedadas. Quando um grupo desses zumbis mais “perigosos” invadem um acampamento do governo onde testes cruéis são administrados nas crianças em questão, Melanie foge com um grupo de adultos – e a história toma rumos imprevisíveis a partir daí. O mais bacana é que The Girl with All the Gifts usa esse cenário único para discutir um tema social que ainda não foi explorado pelo naturalmente político subgênero dos zumbis: o conflito geracional.

Na direção discreta de Colm McCarthy, o filme se transforma em uma fábula essencial sobre a ordem natural do mundo, a substituição dos valores que ocorre com o passar do tempo e, especialmente, do bastão de controle social de uma geração para outra. A feroz e independente Melanie existe como um contraste à dócil professora interpretada por Gemma Arterton ou à ambiciosa doutora encarnada com o comprometimento e excelência de sempre por Glenn Close. Na melhor tradição do gênero, The Girl with All the Gifts é uma inteligente e visceral tradução de uma ansiedade muito real que assola nossa sociedade – é uma pena que encontre aspectos formulaicos em sua estrutura e realização que o impedem de ser a obra prima que merecemos.

✰✰✰✰ (3,5/5)

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Quatro Vidas de um Cachorro (A Dog’s Purpose, EUA, 2017)
Direção: Lasse Hallström
Roteiro: W. Bruce Cameron, Cathryn Michon, Audrey Wells, Maya Forbes, Wallo Wolodarsky, baseados no livro de W. Bruce Cameron
Elenco: Josh Gad, Dennis Quaid, Peggy Lipton, K.J. Apa, Luke Kirby, Britt Robertson
100 minutos

Quatro Vidas de um Cachorro carrega as marcas de um filme de antologia, mesmo que não seja. A visão sempre maleável do talentoso Lasse Hallstrom na direção ajuda com essa impressão – em cada um dos “capítulos” da vida do cachorro no centro  do filme, o filme toma um espírito e estilo diferente, certamente também influenciado pelo roteiro dividido entre quatro autores, incluindo W. Bruce Cameron, que assinou o livro que inspira o filme. Isolados, cada um dos capítulos tem seu charme, e certo nível de verdade emocional. Por toda a sua amabilidade, no entanto, Quatro Vidas de um Cachorro não escapa da noção confortavelmente convencional de um drama americano que prioriza uma história tipicamente (caucasiano-)americana sobre as outras, negligenciando de certa forma a vida sentimental dos personagens à beira dessa história. E sem pessoas ricas em vida emocional, um filme como Quatro Vidas de um Cachorro naufraga, exatamente como faz a cada momento em que apressa ou diminui as histórias “coadjuvantes” para poder retornar à principal.

O filme acompanha, como explicita o título, quatro reencarnações do cachorro dublado por Josh Gad – naquela que toma precedência frente às outras, ele é o companheiro de Ethan (KJ Apa), um jovem com carreira promissora no esporte que acaba tendo que largar tudo após problemas familiares e se tornar proprietário da fazenda dos avós, perdendo a namoradinha (Britt Robertson) no processo. É a história de decepção e triunfo que assombra a mitologia do meio-Oeste americano desde sempre, e talvez por isso Quatro Vidas de um Cachorro soe falso quando se concentra nela ao invés das mais vibrantes e interessantes que vem depois dela. Fizesse uma divisão mais igualitária entre seus “capítulos”, o filme de Hallstrom poderia se tornar um importante documento dos muitos cantos e estilos de vida dos EUA – da forma como está, não consegue escapar de ser emocionalmente frustrante.

✰✰✰ (2,5/5)

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Pérfida (The Little Foxes, EUA, 1941)
Direção: William Wyler
Roteiro: Lillian Hellman, baseada em sua própria peça
Elenco: Bette Davis, Herbert Marshall, Teresa Wright, Richard Carlson, Dan Duryea, Patricia Collinge
116 minutos

Reza a lenda que Bette Davis não gostava de sua performance como Regina Giddens em Pérfida, adaptação para o cinema da peça de teatro tornada lendária por Tallulah Bankhead, uma das grandes intérpretes da dramaturgia americana. Fã incondicional de Bankhead, Davis admitiu ter deixado escapar momentos no filme em que apenas imitava os trejeitos e entonações particulares da colega de profissão -  na tela, no entanto, sua Regina ainda é impecavelmente fria, imponente, sexual de uma maneira ameaçadora, e eventualmente compreensível. Uma mulher que se esconde atrás do dinheiro porque o mundo lhe ensinou que esse seria o único tipo de poder que ela poderia ter, Regina é uma personagem antológica e inesquecível, eternizada na tela por uma Davis impecável, hipnotizante, digna da atenção indivisível do espectador mesmo diante de outros bons intérpretes. O destaque fica por conta de Patricia Collinge, que herdou o papel de Birdie do teatro e cria um contraponto digno de pena e afeição para a frieza de Regina – ao contrário da protagonista, Collinge desaba em detalhes emocionais, provendo um yin para o yang dos efeitos da opressão representado pela personagem de Davis.

A lendária Lillian Hellman adaptou para o cinema a peça de sua própria autoria, garantindo que o final de seu equilíbrio de moralidades continuasse tão discretamente ambíguo quanto era nos palcos. A trama acompanha Regina e seus irmãos tentando convencer o marido da protagonista, um homem adoentado com valores muito diferentes da família mesquinha da esposa, a investir em um negócio que lhes trará lucro obsceno. Na direção, o mestre William Wyler imbui com profundidade os poucos cenários da história, elaborando a relação entre os personagens com signos visuais como a enorme escada da residência Giddens – em uma inversão fascinante, quanto mais alto na escada o personagem está, menos controle da interação ele tem. A subversão de convenções combina com uma fábula em que vilões são os protagonistas, e a esperança da trama na humanidade é cruelmente limitada.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

fang

Desafiando a Arte (The Family Fang, EUA, 2015)
Direção: Jason Bateman
Roteiro: David Lindsay-Abaire, baseado no livro de Kevin Wilson
Elenco: Jason Bateman, Nicole Kidman, Kathryn Hahn, Christopher Walken, Marin Ireland, Michael Chernus, Maryann Plunkett
105 minutos

Desafiando a Arte é um pequeno filme que levanta grandes questões, mas nunca deixa essas questões subirem à cabeça. Dependendo da sua visão sobre ele, o filme pode ser: uma análise estoicamente determinista sobre os limites da arte e sua “genuinidade”; um retrato impiedoso de um relacionamento abusivo entre marido e esposa/pai e filhos; um conto otimista sobre encontrar seu caminho na vida através de apoio emocional e pragmatismo; ou tudo isso ao mesmo tempo, o que provavelmente é mais justo ao produto final. Em seu caminho para desenredar essas questões, no entanto, Desafiando a Arte toma cuidado de não soar pretensioso, construindo em seus personagens os aspectos fundamentais de todas esses exames profundos de temas complexos. Se a estética do filme, dirigido pelo também protagonista Jason Bateman, usa e abusa dos clichês da dramédia independente, o roteiro do talentoso David Lindsay-Abaire (Reencontrando a Felicidade) passa longe da exaustiva reflexão dessas mesmas convenções.

Na trama, acompanhamos os filhos de um casal de artistas contemporâneos de performance, que usavam os dois, quando crianças, para montar encenações/pegadinhas elaboradas, que passavam por instalações artísticas. Hoje, Annie (Nicole Kidman) é uma atriz com problemas de alcoolismo, e Baxter (Jason Bateman) é um escritor com bloqueio criativo – por um acaso do destino, os dois acabam visitando os pais, Caleb (Christopher Walken) e Camille (Maryann Plunkett), pouco antes de ambos sumirem em um incidente misterioso.  O quarteto de atuações principais é um triunfo: a quieta sensibilidade de Bateman contrasta com a sempre transparente e detalhista performance de Kidman, enquanto Walken domina a tela com seu retrato convincente de um homem cujo ego e ideias estão sempre acima do bem estar daqueles a sua volta. Para Desafiando a Arte funcionar, a excentricidade de Walken precisava deixar o disfarce inofensivo de seus personagens mais recentes – e ele encontra a ameaça e manipulação com facilidade assustadora aqui.

✰✰✰✰ (4/5)

ocp

A Última Ressaca do Ano (Office Christmas Party, EUA, 2016)
Direção: Josh Gordon, Will Speck
Roteiro: Justin Malen, Laura Solon, Dan Mazer
Elenco: Jason Bateman, Olivia Munn, T.J. Miller, Jennifer Aniston, Kate McKinnon, Courtney B. Vance, Jillian Bell, Rob Corddry, Vanessa Bayer, Randall Park, Jamie Chung, Abbey Lee
105 minutos

Não há nada de errado com uma comédia que faz paradas eventuais no caos de suas situações para nos atualizar na história de verdade que existe no seu cerne. O problema de A Última Ressaca do Ano, portanto, não é que ele ambicione enredar uma trama além das palhaçadas anárquicas da festa de escritório que dá o título original ao filme, mas sim que tal trama falha em convencer até o mais envolvido dos espectadores. Aqui, vemos a filial de uma empresa, em época natalina, sob ameaça de fechamento após a visita da CEO da companhia, interpretada por Jennifer Aniston – é quanto um investidor em potencial (Courtney B. Vance) aparece e diz que gostaria de “experimentar o ambiente” da empresa antes de fechar o negócio que poderia salvá-la. A solução do gerente T.J. Miller é dar uma festa de arromba, e é desnecessário dizer que as coisas saem do controle a partir daí – o roteiro de Justin Malen, Laura Solon e Dan Mazer tem menos boas ideias cômicas do que deveria, mas ainda encontra certo espírito de descontração que torna a maioria das cenas na festa agradáveis.

É quando os conflitos fraternais, românticos ou mesmo tecnológicos da trama prática se colocam na frente dessa “curtição” que o caldo azeda um pouco. Ancorado nos talentos consideráveis de Aniston, Kate McKinnon (como a “certinha” chefe dos recursos humanos) e Jillian Bell (na pele de uma hilária cafetina), membros mais inspirados de um elenco cheio de talento, A Última Ressaca do Ano quer misturar comédia absurdista com elaboração corporativa inconvincente, e o resultado é um filme consideravelmente menos divertido ou significativo do que poderia ser. Uma equipe cômica como essa certamente merecia (muito) melhor.

✰✰✰ (2,5/5)

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