30 de mai de 2017

Diário de filmes do mês: Maio/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

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O Espaço Entre Nós (The Space Between Us, EUA, 2017)
Direção: Peter Chelsom
Roteiro: Allan Loeb
Elenco: Asa Butterfield, Britt Robertson, Carla Gugino, Gary Oldman, Janet Montgomery
120 minutos

Era uma questão de tempo até o redescoberto gosto do cinemão americano por ficção científica (vide os bem-sucedidos Gravidade e A Chegada) dar luz a um produto genérico como O Espaço Entre Nós. Muito mais visão do estúdio do que jamais poderia ser de seu diretor e seu roteirista, esse romance adolescente com tons de ficção peca por ser agressivamente brando e previsível. Até a “reviravolta” final pode ser vista a um quilômetro de distância, mas isso não seria problema se ela fosse emocionalmente satisfatória – ao invés disso, O Espaço Entre Nós transforma sua grande revelação em uma nota de rodapé na história romântica de Gardner (Asa Butterfield), um garoto nascido e criado na primeira colônia humana de Marte, cuja existência é mantida em segredo pela NASA. Ele se apaixona por uma “terráquea”, Tulsa (Britt Robertson), e escapa das garras da organização espacial para encontrá-la assim que coloca os pés no nosso planeta. A partir daí, uma nada empolgante mistura de road movie romântico e filosofia barata se estrutura, conforme Gardner e Tulsa buscam pela identidade do pai do garoto (sua mãe morreu durante o parto) enquanto são perseguidos por Gary Oldman e Carla Gugino, perdidos em personagens que não lhe fazem jus. Butterfield e Robertson se saem ainda pior, incapazes de criar química onde o roteiro não lhes favorece – esses dois jovens e talentosos atores tem feito escolhas nada produtivas para suas carreiras, o que só aumenta a decepção de O Espaço Entre Nós.

O roteiro de Allan Loeb encontra soluções fáceis para seus conflitos centrais, e sua vaga noção das questões mais importantes levantadas pela história não muda o fato de que, entre as histórias de ficção provocativas que vemos no cinema atual, O Espaço Entre Nós é inofensivo no pior dos sentidos. Até Passageiros, outro veículo hollywoodiano mal-direcionado, buscava explorar dilemas mais interessantes (embora fujisse deles no terceiro ato, infelizmente) e tinha uma elaboração visual mais inteligente. Com fotografia ensolarada e direção sem brilho, O Espaço Entre Nós não faz jus ao gênero nobre em que tenta se encaixar – ficção científica sem garras e dentes afiados não é ficção científica.

✰✰✰ (2,5/5)

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Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2, Canadá/EUA, 2016)
Direção: James Wan
Roteiro: Carey Hayes, Chad Hayes, James Wan, David Leslie Johnson
Elenco: Patrick Wilson, Vera Farmiga, Frances O’Connor, Madison Wolfe, Maria Doyle Kennedy, Franka Potente
134 minutos

Durante as mais de duas horas de Invocação do Mal 2, continuação comandada pelo mesmo James Wan que deu início à franquia, uma sensação incômoda e excitante continuava me provocando. E não, não eram as assombrações enfrentadas pelo casal de paranormais Ed e Lorraine Warren (Patrick Wilson e Vera Farmiga), e sim a impressão curiosa de que Wan estava fazendo uma homenagem, nesse filme, a um mestre inusitado do gênero cinematográfico: Steven Spielberg. Invocação do Mal 2, como peça puramente técnica de cinema de terror, deve muito a Spielberg – a forma como Wan brinca com a percepção do espectador daquilo que está fora da câmera (ou fora de foco, em uma cena memorável), que se conduz em movimentos longos e vagarosos, é especialmente reminiscente do estilo Spielberg de comandar a ação e a tensão em seus arrasa-quarteirões. Os breves flashes das figuras demoníacas enfrentadas pelos protagonistas e a sensação de que eles estão sempre se movendo para além do alcance da câmera  provoca um incômodo visceral que pode não permanecer com o espectador quando os créditos sobem, mas funciona às mil maravilhas enquanto o filme está na tela. Invocação do Mal 2, antes mesmo de ser assustador, quer ser tão divertido quanto um passeio de montanha-russa – e, largamente, consegue.

Para produzir essa sensação, Wan e seu diretor de fotografia, Don Burgess, procuram estabelecer seus cenários firmemente, e adicionar aos monstros da vez um toque de criatividade visual que não existia no primeiro filme, dominado por possessões demoníacas “padrão”. Como resultado dessa nova abordagem, no entanto, Wan acaba chutando os personagens para escanteio, e talvez por isso, mesmo com sua excelência técnica, Invocação do Mal 2 pareça em última instância inferior ao primeiro – ele não nos envolve na luta e sofrimento dos clientes dos Warren como seu predecessor, e o drama pessoal do casal paranormal não é o bastante para tapar esse buraco (ou a ausência de uma Lili Taylor, diga-se de passagem).

✰✰✰✰ (3,5/5)

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Logan (EUA/Canadá/Austrália, 2017)
Direção: James Mangold
Roteiro: Scott Frank, James Mangold, Michael Green
Elenco: Hugh Jackman, Dafne Keen, Patrick Stewart, Boyd Holbrook, Stephen Merchant, Richard E. Grant
137 minutos

Há algumas verdades simples sobre a história dos X-Men e, especialmente, o personagem de Wolverine, que Logan entende muito bem, talvez melhor que qualquer outro filme da franquia. Entre elas: a fundamental fragilidade da atitude de “lobo solitário” do mutante canadense, e a importância da noção de comunidade para o progresso social frente a obstáculos aparentemente instransponíveis. O filme de James Mangold espertamente mistura essa mitologia a do western americano em um filme em que vemos um Logan envelhecido, cuidado de um Professor Xavier ainda mais fragilizado, em um futuro que não vê o nascimento de um mutante há mais de 20 anos. É nesse contexto que eles encontram Laura (a jovem e talentosa Dafne Keen), que misteriosamente demonstra poderes parecidos com os de Logan – e que tem uma organização governamental violenta em seu encalço. A trama então se transmuta em um curioso road movie sobre paternidade, as marcas indeléveis da violência e o direito daquilo que é considerado “velho” de existir em um mundo que não o considera mais uma ameaça ou uma parte válida da sociedade. Ao inverter o jogo e colocar os mutantes como os temerosos ao invés dos temidos, Logan é uma poderosa fábula sobre perseguição preconceituosa como qualquer filme da franquia X-Men deveria ser.

É também é uma esperta metáfora sobre imigração e refugiados, embora de forma bem mais discreta e elegante do que era de se esperar de um filme tão violento. O diretor Mangold, experimentando um filme do Wolverine com classificação etária mais restrita, regozija no desaparecimento das limitações e comanda cenas de ação brutalmente físicas sem precisar encontrar formas de comunicar a selvageria do personagem em meias palavras. A falta de sutileza também serve bem a Jackman, que faz sentir a vulnerabilidade de Logan não só na linguagem corporal como em momentos-chave do filme, trabalhando a imagem icônica que construiu ao longo dos anos e expondo o medo e a insegurança que existem por trás dela. Inteligente e refrescantemente completo (sem ganchos para continuações ou “travas” do estúdio), Logan demonstra a potencialidade do gênero de super-heróis para uma reflexão social ainda mais profunda do que vimos até agora. Resta esperar que, visto o sucesso de bilheteria, seu exemplo seja seguido.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Lovesong (EUA, 2016)
Direção: So Yong Kim
Roteiro: Bradley Rust Gray, So Yong Kim
Elenco: Riley Keough, Jena Malone, Ryan Eggold, Brooklyn Decker, Amy Seimetz, Rosanna Arquette, Cary Joji Fukunaga
84 minutos

Lovesong é um animal curioso. Com seus 84 minutos, passa rápido pelos olhos do espectador, e com sua estética indie, não parece carregar muito peso. No entanto, quando os créditos sobem, a impressão é que uma eternidade se passou, e de repente as questões e impressões levantadas pelo filme revelam sua densidade. De certa forma, poucos filmes tem um título mais adequados: o filme de So Yong Kim é mesmo uma “canção de amor”, tanto em sua estrutura quanto em seus temas. Como peça observacional, no trabalho de Kim e dos diretores de fotografia Guy Godfree e Kat Westergard, o filme faz rimas visuais sem esforço, estabelecendo um forte senso de conexão com o ambiente no qual as personagens estão inseridas, e mergulhando fundo em momentos aparentemente simples que revelam profundidades inesperadas. O roteiro de Kim com o marido, Bradley Rust Gray, escapa deliberadamente de preocupações práticas, preferindo deixar pontos importantes da trama subentendidos na relação, nos olhares e nos diálogos entre as protagonistas. É um trabalho belo de elaboração cinematográfica, uma espécie de poesia audiovisual raramente vista mesmo no cinema independente americano – poucas vezes um filme tão apoiado nas intangibilidades de uma relação funcionou tão bem.

Nossa protagonista é Sarah (Riley Keough), jovem mãe da adorável Jessie e esposa de um marido ausente. Em depressão, ela entre em contato com uma amiga de faculdade, Mindy (Jena Malone), e as duas partem uma road trip espontânea que revela desejos e peculiaridades da relação entre elas que nenhuma das duas está pronta para encarar. Três anos mais tarde, elas se reencontram no casamento de Mindy. O filme pouco estrutura além disso em termos de narrativa, se apoiando nas duas atuações centrais, que criam uma química irresistível e, em última instância, de quebrar o coração. Keough está especialmente fantástica, encarando um leque amplo de emoções e expressando com brilhantismo a hesitação de um amor restringido por amarras sociais e desencontros casuais que talvez nem mesmo as amantes em questão consigam superar.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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John Wick: Um Novo Dia para Matar (John Wick: Chapter 2, EUA/Hong Kong/Itália/Canadá, 2017)
Direção: Chad Stahelski
Roteiro: Derek Kolstad
Elenco: Keanu Reeves, Riccardo Scamarcio, Ian McShane, Ruby Rose, Common, Lance Reddick, Laurence Fishburne, John Leguizamo, Peter Stormare
122 minutos

O John Wick original, lançado no Brasil sob o título De Volta ao Jogo em 2014, funcionava largamente porque não se levava terrivelmente a sério, o que permitia ao espectador se divertir com algumas das cenas de ação mais brutais e impecavelmente coreografadas/performadas em muito tempo. É curioso perceber que o contrário acontece com Um Novo Dia Para Matar, continuação lançada esse ano em que Keanu Reeves reprisa o papel do assassino de aluguel, agora sendo obrigado a pagar uma dívida antiga. Nas mãos do hábil roteirista Derek Kolstad, a saga de John Wick continua patentemente ridícula, com seu submundo de assassinos cheio de regras – mas é também a envolvente história de um homem que não só não tem mais nada a perder, como também se agarrou a única coisa que conheceu intimamente durante a vida: a violência e, especialmente, a vingança. Não é um conceito novo, mas funciona surpreendentemente bem quando casado com tiroteios fenomenalmente estruturados, coadjuvantes apropriadamente excêntricos e uma performance tão inadequada quanto estranhamente eficiente de Reeves. O astro de Matrix nunca foi bom ator, mas é inegável sua capacidade de criar personagens icônicos, e seu faro especial para construir “peixes fora d’água” que são, contraditoriamente, terrivelmente cool.

John Wick 2 se apoia nessa contradição muito mais que o primeiro filme, enquanto o diretor Chad Stahelski mostra seus melhores truques e a maestria de sempre na condução das cenas de ação. Elas são brutais como de costume, exponencialmente mais elaboradas em relação ao primeiro capítulo da saga, e terrivelmente excitantes. A trama complicada montada por Kolstad através de ume premissa mais simplista impossível tem maus momentos, mas o filme compensa a paciência do espectador tanto com um clímax explosivo quanto com certa satisfação emocional/moral ausente do primeiro. John Wick acaba de ficar muito mais interessante.

✰✰✰✰ (4/5)

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