11 de mai de 2017

Review: Guardiões da Galáxia Vol. 2 não pede desculpas por ser brega – e nem deveria

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por Caio Coletti

Por nove anos e quinze filmes, a Marvel Studios tem construído seu universo com um barulho enganador. Apesar de ser a franquia mais amada e vigiada da atualidade, o universo cinematográfico Marvel normalmente é tão sutil quanto um blockbuster jamais poderia ser na costura de seus temas e discussões maiores. Ler nas entrelinhas (e nas entrelinhas das entrelinhas) para encontrar metáforas sobre identidade, militarização, liderança e justiça já é uma segunda natureza para os espectadores mais atentos – e talvez por isso seja tão refrescante constatar que, no cenário dessa franquia, um filme como Guardiões da Galáxia Vol. 2 ainda pode existir.

A segunda aventura dos heróis intergalácticos comandada por James Gunn mostra o protagonista, Peter Quill (Chris Pratt) finalmente encontrando seu pai, o ser todo-poderoso Ego (Kurt Russell), que engravidou e deixou a mãe do herói para trás décadas antes. A ideia de uma família formada por laços emocionais (ao invés de biológicos) já era forte no primeiro filme, mas, ao assumir sozinho o roteiro dessa continuação, Gunn escancara as portas de um sentimentalismo genuíno, abandonando o estilo contido e “realista” dos relacionamentos dentro do contexto da Marvel em favor de uma abordagem estilizada e ultradramática que, surpreendentemente, funciona.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 é um pastiche de ideias complexas e emoções primárias, que busca um diálogo franco com o espectador como raramente vemos na era de blockbusters cínicos em que vivemos. O uso espetacular dos efeitos especiais, criando um mundo muito mais sinérgico e colorido do que estamos acostumados no gênero, é um bônus – Gunn tem faro para a coisa, e estava na hora de algum esteticista habilidoso quebrar o padrão das cores “mudas” e das sombras onipresentes no mundo dos super-heróis pós-O Cavaleiro das Trevas.

É claro que o filme não funciona o tempo todo. Em alguns momentos, essa abordagem “aberta” de Gunn ao lidar com clichês do gênero cria piadas e cenas descartáveis, e o adorável Bebê Groot dublado por Vin Diesel (?!) cheira um pouco demais a golpe publicitário para ser completamente abraçado pelo espectador médio. O mais bacana, no entanto, é que Gunn sabe quais convenções chutar para escanteio e quais adotar para si – por todo o seu sentimentalismo, Guardiões da Galáxia Vol. 2 nunca parece manipulador, e procura encontrar tridimensionalidade em todos os seus personagens, com uma trama descomplicada que permite que a jornada de cada um se desenvolva.

As duas mulheres protagonistas do filme, Gamora (Zoe Saldana) e Nebula (Karen Gillan), por suas vezes, ganham arcos mais fortes do que a maioria das personagens femininas da Marvel. Saldana parece especialmente acomodada ao papel, entregando uma Gamora que pode rankear com facilidade entre as grandes heroínas da ficção científica. A autonomia dessas guerreiras não precisa ser provada dentro do roteiro de Gunn – ao posicioná-las como forças já a serem reconhecidas na história, o diretor dá espaço para suas intérpretes trabalharem, e a relação entre as duas é marcantemente complexa para um blockbuster de verão.

Lidando de forma esperta com temas como arrogância, poder, comunidade e vingança, Guardiões da Galáxia Vol. 2 deixa todas as suas cartas na mesa para o espectador. Em seu abraço entusiasmado das possibilidades de contar uma história, o filme pode ser lido como jocoso, ou brincalhão demais, ou mesmo brega – mas Gunn e companhia não só tem essa consciência, como não pedem desculpas por isso. Pensar que a Marvel, sempre tão habilidosa em esconder suas ambições narrativas nas sombras de um bom e velho “arrasa quarteirão descompromissado”, ainda é capaz de se abrir para o ridículo e o maravilhoso de suas próprias histórias, deveria ser animador para qualquer amante de cinema (e quadrinhos) por aí.

✰✰✰✰ (4/5)

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Guardiões da Galáxia Vol. 2 (Guardians of the Galaxy Vol. 2, EUA, 2017)
Direção: James Gunn
Roteiro: James Gunn, baseado nos quadrinhos de Dan Abnett & Andy Lanning
Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Michael Rooker, Karen Gillan, Pom Klementieff, Sylvester Stallone, Kurt Russell, Elizabeth Debicki, Chris Sullivan, Sean Gunn
136 minutos

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