23 de mai de 2017

Review: The Keepers, série documental da Netflix, é o pedaço de TV mais importante do ano

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por Caio Coletti

No alto do pôster de The Keepers, nova série documental da Netflix, o serviço de streaming se orgulha de ser a casa de outra produção do gênero celebrada (e vencedora de Emmys), Making a Murderer. A exaustiva série em 10 episódios sobre o caso Steven Avery foi um dos pedaços de audiovisual mais vistos, discutidos e polêmicos do ano passado, e assisti-la é sem dúvida uma experiência única. “Morbidamente fascinante” é uma expressão tão adequada para Making a Murderer quanto “absolutamente fundamental”, no sentido em que abre uma discussão franca sobre a eficiência da justiça em fiscalizar seus próprios atos. De certa forma, a série sobre Avery é um sermão de 10 horas sobre a prepotência da justiça como instituição, e suas latentes falhas.

O que Making a Murderer é também, no entanto, é uma peça de advocacia descarada que esconde evidências, detalhes e sutilezas que podem influenciar o julgamento do espectador sobre o caso que vê em tela. É um convincente e, em partes, tocante discurso apaixonado em defesa de seu protagonista, mas não aspira ser nada além disso – e, talvez, perca a oportunidade de ser uma obra-prima de verdade no caminho. The Keepers não sofre desse mal. O diretor Ryan White aborda o caso do assassinato da Irmã Cathy Cesnik em 1969 e seus desdobramentos atuais da forma como um diretor de cinema deve fazê-lo: como uma história, uma narrativa que, por acaso, é real.

Nessa condição, ele destrincha personagens e detalhes com a voracidade de um investigador e a sutileza de um artista, buscando os temas centrais dessa saga e as qualidades nucleares de cada sujeito em frente à câmera. Se alguns episódios de Making a Murderer, para o bem ou para o mal, pareciam-se com digressões longas acerca de pequenos detalhes das evidências, The Keepers não tem um minuto que não seja essencial para seu desenvolvimento como obra de arte. Tão frequentemente esquecemo-nos da dimensão cinematográfica do cinema documental, da forma como ele pode inspirar, chocar, emocionar e marcar não só pela força de sua história real, como também pela forma como ela é contada. The Keepers nos lembra de tudo isso, e recupera a grandeza dessa forma de arte no caminho.

O que mais impressiona é que The Keepers faz isso mesmo quando não precisava fazer. As questões reais levantadas pela história da freira assassinada são centrais o bastante para uma discussão social mais contemporânea impossível (abuso sexual, especialmente de menores, e ainda mais especificamente dentro da igreja católica) para que o documentário se sustentasse sozinho. No entanto, Ryan White escolhe aproveitar a oportunidade para mergulhar fundo também no significado da memória, na passagem inclemente do tempo, na propriedade corrosiva dos segredos que carregamos de outra época e do trauma que marinamos no nosso íntimo, e na forma como esses sentimentos todos podem morrer com quem os guardou, para sempre não resolvidos.

Da forma como foi feita, The Keepers é uma elegia e uma exaltação daqueles e daquelas que tiveram coragem de externar esses traumas, segredos e memórias. É muito mais uma história de sobreviventes do que de uma freira morta, que se tornou símbolo de uma resistência que ela nunca foi capaz de concretizar em vida. É tão devastadoramente atual, relevante e explosivo quanto Making a Murderer, especialmente quando analisa a forma como as leis parecem desdenhar das vítimas e proteger os abusadores. É sensorialmente assustadora e amarga, usando reconstruções em preto e branco e o olhar inclemente de uma câmera detalhista para puxar o espectador para dentro da história.

The Keepers é o pedaço de televisão mais importante que você vai ver em 2017. Ainda mais que isso, no entanto, é o melhor. É quando a importância de um tema e a maestria de um artista se juntam dessa forma que precisamos celebrar a capacidade humana de contar histórias, reais ou inventadas, e se transformar constantemente com elas.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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The Keepers (EUA, 2017)
Direção: Ryan White
7 episódios

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