29 de jun de 2017

Diário de filmes do mês: Junho/2017

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por Caio Coletti

Nem todos os filmes merecem (ou pedem) uma análise complexa como a que fazemos com alguns dos lançamentos mais “quentes” ou filmes que descobrimos e nos surpreendem positivamente. É levando em consideração a função da crítica e da resenha como uma orientação do público em relação ao que vai ser visto em determinado filme que eu resolvi criar essa coluna, que visa falar brevemente dos filmes que não ganharam review completo no site. Vamos lá:

colossal

Colossal (EUA/Canadá/Espanha/Coreia do Sul, 2016)
Direção e roteiro: Nacho Vigalondo
Elenco: Anne Hathaway, Jason Sudeikis, Austin Stowell, Tim Blake Nelson, Dan Stevens
109 minutos

As ambições de Colossal não combinam com o seu tamanho, como produção ou como obra cinematográfica. Assistir ao filme de Nacho Vigalondo é ver Davi tentando ser Golias – uma pequena dramédia indie se engraçando nas metáforas da ficção científica, tocando em questões sociais sérias através de uma premissa surreal. Colossal não deveria funcionar, mas, através de alguma mágica operada pelo diretor/roteirista espanhol, ele funciona. Em rasteiros 109 minutos, Vigalondo encontra tempo para estabelecer um tom único, nos envolver na história dos personagens, fazer gracinhas metalinguísticas e provocar reflexão sérias sobre assuntos como alcoolismo e relacionamentos abusivos. Na trama, a jovem Gloria (Anne Hathaway) se separa do controlador namorado Tim (Dan Stevens), incapaz de lidar com sua bebedeira crônica. Ela retorna para sua cidade natal, onde se reencontra com um amigo de infância, Oscar (Jason Sudeikis), que lhe dá um emprego – tudo corre normalmente até o dia em que um monstro gigante aparece sem explicação a oceanos de distância, em Seoul, e Gloria descobre que é capaz de controlar os movimentos da criatura. A genialidade do scipt de Vigalondo é que ele não se perde nas possibilidades exploratórias óbvias de sua premissa improvável, encontrando ao invés disso metáforas e situações tangenciais surpreendentemente envolventes.

No papel de Gloria, Hathaway equilibra a loucura do filme com uma performance centrada, correta no timing cômico, mas especialmente profunda na compreensão da jornada da personagem e sua fundamental confusão com a vida ao seu redor. É pela entrega de Hathaway que o clímax de Vigalondo funciona, mesmo com sua lógica frágil – com um olho inteligente para os detalhes do dia a dia de uma alcoólatra, e para as sutilezas surpreendentes e assustadoras do abuso romântico, o diretor espanhol se mostra um artista mais profundo e inteligente do que a superfície de sua ficção científica absurda dá a entender. Colossal é um drama honesto embrulhado em uma comédia referencial e cínica sobre monstros gigantes, ou, em outras palavras, é um produto inquestionável de seu tempo.

✰✰✰✰ (4/5)

boss

O Poderoso Chefinho (The Boss Baby, EUA, 2017)
Direção: Tom McGarth
Roteiro: Michael McCullers, baseado no livro de Marla Frazee
Elenco: Alec Baldwin, Steve Buscemi, Jimmy Kimmel, Lisa Kudrow, Tobey Maguire, Miles Bakshi
97 minutos

O diretor Tom McGarth, que iniciou a franquia Madagascar e fez o ótimo (e subestimado) Megamente, frequentemente tem sua genialidade visual relegada ao segundo plano. Em O Poderoso Chefinho, mais uma comédia animada cheia de referências cinematográficas, verdadeira do começo ao fim à marca da DreamWorks, essa injustiça é finalmente corrigida. A adaptação do livro infantil de Marla Frazee é um banquete para os olhos, infinitamente criativa na sua construção de mundo, tanto quanto na idealização dos espaços, cores e percepções que o formam. A trama acompanha Tim (Miles Bakshi), um menino de 7 anos cujos pais (Lisa Kudrow e Jimmy Kimmel) acabam de trazer para casa o segundo filho – acontece que o tal bebê é na verdade um gênio dos negócios, completo com a voz inconfundível de Alec Baldwin, basicamente reencarnando seu personagem de 30 Rock. Quando a dupla de irmãos, que a princípio não se gosta, precisa se unir para estragar os planos de um vilão, O Poderoso Chefinho se entrega às inspirações mais absurdas de sua premissa e cria um universo visual muito particular, que precisa ser apreciado e celebrado por sua inventividade e seu valor artístico.

É verdade que a mensagem do filme não é mais inspirada da DreamWorks, e talvez por isso todo esse estouro visual fique apagado. O mesmo aconteceu com Trolls, da produtora, que trocou um esforço maior no departamento de roteirização pelo espetáculo vazio das cores e texturas da animação – o resultado é que tanto um filme quanto o outro parecem obras incompletas, de potencialidades não exploradas, que não se comprometem de verdade com os filmes que poderiam ser. É um erro que a Pixar raramente comete, mesmo em seus momentos de maior fraqueza. Um filme desapaixonado de si mesmo, cinicamente desenhado para atingir um meio termo entre o menor denominador comum e a criatividade desimpedida, é um filme incapaz de conquistar o espectador.

✰✰✰✰ (3,5/5)

17

Quase 18 (The Edge of Seventeen, EUA/China, 2016)
Direção e roteiro: Kelly Fremon Craig
Elenco: Hailee Steinfeld, Haley Lu Richardson, Blake Jenner, Kyra Sedgwick, Woody Harrelson, Hayden Szeto
104 minutos

Desde os tempos de James Dean em Juventude Transviada (1955), talvez mesmo antes disso, é sempre motivo de comemoração quando Hollywood faz um filme sobre pessoas jovens que encontra nuance, complexidade e sutileza nas emoções e situações de suas vidas. Foi assim com John Hughes e sua trilogia adolescente nos anos 80, e é assim agora com Quase 18, título nacional de The Edge of Seventeen, estreia na direção e roteiro de Kelly Fremon Craig. É um pouco incômodo que esses filmes sejam a exceção – ter personagens tratados com profundidade e humanidade não deveria ser privilégio de nenhuma faixa etária, e cinema sensível e compreensivo não deveria ser artigo raro. Em Quase 18, Craig disseca a vida de Nadine (Hailee Steinfeld), cuja única amiga próxima, Krista (Haley Lu Richardson), subitamente se torna popular ao engatar um namoro justamente com o irmão de Nadine, o “queridinho da escola” Darian (Blake Jenner). O filme trata essa virada do destino com a ironia cruel que é particular da adolescência, e as falhas de Nadine com o olhar clínico (e cínico) que é próprio da maturidade. Craig usa com inteligência suprema coadjuvantes como o Professor Bruner (Woody Harrelson) para criar um distanciamento saudável do drama adolescente de Nadine sem subestimá-lo ou satirizá-lo de forma cruel.

Steinfeld, por sua vez, carrega a análise equilibrada e sensível do filme nas costas com uma performance belissimamente modulada. A garota-prodígio que foi indicada ao Oscar (merecidamente) aos 15 anos volta a mostrar que pode se tornar umas das intérpretes mais sutis, versáteis e envolventes da filmografia americana nas próximas décadas. Quase 18 é uma esperta história sobre responsabilidades, altruísmo e a inescapável realização, na pós-adolescência, de que o mundo é ridiculamente maior, mais complexo e mais sombrio que o nosso inferno particular – mas que, ao mesmo tempo, esse inferno particular nunca deixa de existir. Ainda assim, o filme de Craig acha espaço para ser otimista de sua própria forma, realçando a independência que a protagonista persegue durante todo o filme. É uma raridade de filme, mesmo que não devesse ser.

✰✰✰✰ (4/5)

batb

A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, EUA/Inglaterra, 2017)
Direção: Bill Condon
Roteiro: Stephen Chbosky, Evan Spiliotopoulos, baseados no roteiro original de Linda Woolverton
Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Audra McDonald, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw
129 minutos

Eu não faço o tipo de criticar a existência de remakes em Hollywood. Às vezes, histórias antigas precisam de releituras com sensibilidades modernas, para que suas mensagens e magia próprias possam sobreviver a um mundo transformado. É o que ocorreu com Malévola, Cinderela e Mogli – O Menino Lobo, três filmes recentes da Disney que adaptavam seus clássicos em animação para filmes com atores. São obras do cinema pop que tomaram decisões-chave para reimaginar e ressignificar aspectos de seus originais, corrigindo cursos de forma que era virtualmente impossível no passado. Ao assistir A Bela e a Fera, de Bill Condon, que refaz a animação de 1991 da Disney, essa mesma sensação não se replicou – talvez porque o original é bem mais recente que os outros refeitos pelo estúdio, os riscos calculados que os produtores estavam dispostos a tomar não eram tão diferentes daqueles que já estavam embutidos no desenho. O resultado é uma bonita produção com a mesma metáfora inteligente que o filme de 1991 fazia sobre masculinidade tóxica enquanto contava uma história de amor que fugia de seus problemas óbvios para se revelar realmente encantadora – não é um mau filme, mas é um que não tem razão para existir.

A direção de Bill Condon é um presente para os aspectos luxuosos da produção. O cineasta sabe realçar e equilibrar efeitos especiais deslumbrantes, design de produção genial e figurinos suntuosos, criando um visual luminoso e polido que combina com a narrativa. As músicas emprestadas do original seguem deliciosas, um atestado a atemporalidade das composições de Alan Menken e Howard Ashman, embora a única original do novo filme, “Evermore”, se arraste em uma interpretação sem brilho de Dan Stevens. É o único escorregão do ator por trás da captura de movimentos da Fera, no entanto, já que Stevens constrói, com inteligência, um personagem extraordinariamente idiossincrático durante o filme. Sua atuação é uma das poucas notas originais de A Bela e a Fera, um grande espetáculo que, infelizmente, pode dar ainda mais má fama à moda dos remakes.

✰✰✰✰ (3,5/5)

hush

Com a Maldade na Alma (Hush… Hush, Sweet Charlotte, EUA, 1964)
Direção: Robert Aldrich
Roteiro: Henry Farrell, Lukas Heller
Elenco: Bette Davis, Olivia de Havilland, Joseph Cotten, Agnes Moorhead, Cecil Kellaway, Victor Buono, Mary Astor, Bruce Dern
133 minutos

A história do cinema é frequentemente injusta. Dos dois filmes do movimento hagsploitation feitos por Robert Aldrich, explorando mulheres mais velhas e as histórias de terror escondidas em seu passado e presente, O Que Aconteceu com Baby Jane? (1962) ficou mais conhecido, graças às brigas entre suas duas estrelas, Bette Davis e Joan Crawford. Seu segundo, no entanto, esse Com a Maldade na Alma (1964), é um exercício de gênero muito mais completo, com uma performance matadora e equilibrada de Olivia de Havilland na pele de Miriam. A personagem da estrela de …E o Vento Levou é a prima da protagonista, Charlotte (Davis), que, após um trauma de juventude envolvendo um amante, se tornou cada vez mais reclusa e solitária. Quando a prefeitura ameaça demolir a casa da família para construir uma ponte, Miriam chega para acalmar os ânimos – ou quase isso. O filme de Aldrich abraça com elegância os elementos trash do gênero que explora, criando um enervante suspense psicológico, com diálogos recheados de entrelinhas trabalhadas com prazer imenso por gente como Havilland e Agnes Moorhead, genial na pele da fiel empregada de Charlotte.

Davis, por sua vez, parece estar em um espetáculo particular (como de costume). É sempre um deleite assisti-la viver e morrer pelas emoções de suas personagens, e em Charlotte ela encontra uma rica fonte de ressentimentos, confusões e medos para expressar em tela – se Havilland é quem carrega a coerência e verossimilitude do filme, Davis carrega seu senso de teatralidade. O dueto entre as duas é talvez ainda mais belo de observar do que aquele entre Davis e Crawford em Baby Jane, talvez por se ver livre do simbolismo que a rivalidade entre elas carregava. Sem esse peso, Com a Maldade na Alma tem a liberdade de ser um horror referencial brilhante, cheio de momentos que seriam emulados no futuro da filmografia americana.

✰✰✰✰✰ (4,5/5)

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Power Rangers (EUA/Hong Kong/Japão/México/Canadá/Nova Zelândia, 2017)
Direção: Dean Israelite
Roteiro: John Gatins, baseado na série criada por Haim Saban
Elenco: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludi Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Bryan Cranston, Bill Hader
124 minutos

Dean Israelite tinha uma missão impossível em Power Rangers, nova versão para o clássico trash infantil dos anos 90: adaptar a trama desses vingadores coloridos intergalácticos para o contexto de blockbuster “sombrio” e “realista” que Hollywood patrocina no atual momento cultural. Como se isso não fosse difícil o bastante, o diretor e seu roteirista, John Gatins, ainda sofreram pressão para fazer tudo isso sem desagradar aos fãs do original que pediam fidelidade ao espírito e aos detalhes da história. Tendo tudo isso em vista, o resultado poderia ser muito, muito pior. Ao invés de um filme ativamente e cinicamente terrível, o Power Rangers de 2017 é apenas um pouco esquizofrênico, tentando equilibrar um drama colegial honesto, ainda que um pouco aleatório, com o surrealismo da premissa principal. Coloque na conta uma Rita Repulsa equivocadamente repaginada na pele de Elizabeth Banks, e um elenco de jovens apenas marginalmente talentoso, e você tem uma aventura de 124 minutos que tem problemas para encontrar seu ritmo, e cujas boas sacadas (especialmente na parte do drama colegial) ficam perdidas em um mar de geral indiferença que ela desperta no espectador.

Na trama, acompanhamos cinco adolescentes de Alameda dos Anjos. Jason (Dacre Montgomery) é um atleta desiludido envolvido em atos de vandalismo, Kimberly (Naomi Scott) uma ex-garota popular excluída após um escândalo de sexting (?), Billy (RJ Cyler) um garoto autista que perdeu o pai, Zack (Ludi Lin) um solitário incorrigível que precisa cuidar da mãe doente, e Trini (Becky G) uma rebelde lésbica sem amigos. Após uma noite em que, aleatoriamente, estavam todos juntos em uma mina abandonada da cidade, eles descobrem “moedas” de poder e são recrutados pelo robô Alpha 5 (Bill Hader) para se tornarem a nova geração de Power Rangers, justamente quanto Rita retorna dos mortos para tentar dominar o mundo. É estranho ver um Power Rangers que não reconheça o ridículo de toda essa premissa, mas o filme de Israelite encontra uma maneira de contornar essa estranheza, usando o pouco tempo que dispõe para desenvolver os personagens com esperteza, tornando-os um pouco mais do que uma mistura de estereótipos aleatórios. Funciona melhor do que teria o direito de funcionar, mas não o bastante para obliterar a fundamental má ideia na qual o reboot foi construído.

✰✰✰ (2,5/5)

kong

Kong: A Ilha da Caveira (Kong: Skull Island, EUA/China/Austrália/Canadá, 2017)
Direção: Jordan Vogt-Roberts
Roteiro: Dan Gilroy, Max Borenstein, Derek Connolly, baseados nos personagens criados por Merian C. Cooper & Edgar Wallace
Elenco: Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John C. Reilly, John Goodman, Corey Hawkins, John Ortiz, Tian Jing, Toby Kebbell
118 minutos

Durante os últimos 80 e poucos anos, três dos maiores filmes já lançados por Hollywood em suas respectivas épocas foram estrelados por King Kong, o gorila gigante mais famoso do imaginário popular. Em 1933, 1976 e 2005, o mundo parou para ouvir a mesma história de dominação humana irresponsável e presunçosa, e quando Kong: A Ilha da Caveira foi anunciado para este ano, nós já sabíamos o que esperar. É aí que entra Jordan Vogt-Roberts, o genioso diretor por trás do novo blockbuster do gorila, que agarrou a oportunidade de seu primeiro arrasa-quarteirão para virar a fórmula de cabeça para baixo e fazer um filme excepcionalmente estranho, espantosamente inteligente, e deliciosamente inesperado. As referências para o novo Kong são os filmes passados na Guerra do Vietnã, como Apocalypse Now, Platoon e Nascido Para Matar, triunfos de rigor técnico que criaram um universo sensorial muito particular ligado a esse conflito da história mundial. O filme de Vogt-Roberts empresta essa identidade visual para espertamente transformar King Kong em uma metáfora para a guerra impossível (e impossivelmente cruel) travada por americanos com um entendimento trágico da filosofia ufanista de seu país natal.

Parece exagero ligar um filme como Kong: A Ilha da Caveira a esse tipo de reflexão, mas as melhores narrativas pop são capazes de divertir e fazer pensar ao mesmo tempo. Com suas névoas tóxicas coloridas, sua paisagem em permanente crepúsculo selvagem, seus efeitos especiais impressionantes inseridos em um universo visual que já seria deslumbrante sem eles, o filme de Vogt-Roberts é um feito cinematográfico e tanto, uma deliciosa alquimia kitsch com um ponto a provar e a coragem de surpreender o espectador provando-o. Poucos blockbusters são mais desafiadores para o público acostumado ao padrão de Hollywood, e só por isso Kong: A Ilha da Caveira já merece ser celebrado como um dos grandes produtos do cinema pop americano em 2017.

✰✰✰✰ (4/5)

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