2 de jun de 2017

Review: Mulher Maravilha nos lembra que cinema de super herói também pode (e deve) ser arte

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por Caio Coletti

Os leitores d’O Anagrama com certeza podem me apoiar nessa declaração: eu nunca fui de considerar arrasa-quarteirões hollywoodianos como diversão descompromissada. A ideia de que a arte do cinema vive só nas salas cult pelo mundo me parece falsa e presunçosa, e é mais do que óbvio que uma medida de arte existe dentro do cinemão comercial, quando ele está disposto a aceitá-la. A edição clara e precisa de Capitão América: Guerra Civil, o uso absurdamente criativo dos efeitos digitais em Doutor Estranho, a atuação transcendente de Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas – o cinema de super-heróis do nosso século tem incorporado essas medidas de arte rotineiramente, mas é fácil ignorá-las, seja porque apontá-las causa tanta polêmica entre os fãs mais “acadêmicos” de cinema, ou porque a dimensão desses filmes como discurso pop (o que é igualmente importante, diga-se de passagem) é muito maior do que seus méritos técnicos.

Quando saí da minha primeira sessão de Mulher Maravilha, no entanto, a impressão clara era que o filme de Patty Jenkins existia em uma dimensão diferente daqueles que acompanhamos durante as últimas décadas. Ele é uma peça de cinema feita com tanto cuidado aos detalhes, tanta genuína admiração, tanta simples excelência, que faz com que seja impossível ignorá-lo. É um triunfo de rigor cinematográfico, de narrativa pop, de pura iconoclastia, que eleva o gênero dos super-heróis ao Éden onde vivem clássicos do cinemão americano e da cultura ocidental. O fato de ser o tão esperado filme da Mulher Maravilha, e o primeiro filme de mais de US$100 milhões dirigido por uma mulher, a quebrar essa barreira… Bom, isso só pode ser definido pela palavra simbólico.

A trama do filme acompanha Diana Prince (Gal Gadot), introduzida em Batman vs Superman, e aproveita para contar sua história de origem: sua vida pacífica em uma ilha povoada por amazonas, criadas pelos deuses gregos para proteger os homens de sua tendência à agressão, é abalada quando o piloto americano Steve Trevor (Chris Pine) sofre um acidente por perto, trazendo notícias preocupantes sobre uma guerra brutal acontecendo no mundo lá fora (a Primeira Guerra Mundial, no caso). Sob os protestos de sua mãe, a Rainha Hyppolita (Connie Nielsen), Diana parte com ele para dar um fim no conflito. Não é uma trama complicada, mas abre espaço para um passeio por gêneros habilidoso que mostra a versatilidade da diretora Patty Jenkins, tão afiada nas cenas de ação recheadas de deliciosa câmera lenta quanto no timing cômico dos momentos em que Diana está se adaptando à “civilização” fora da ilha das amazonas.

Embora já tivesse demonstrado o carisma e presença de tela no filme anterior, em que apareceu por breves minutos, Gal Gadot floresce ao concentrar as atenções de seu filme solo – pouco conhecida antes de conseguir o papel, a israelense tem tanto a sutileza quando a sinceridade necessárias para passear pelas emoções primárias e pelo arco complexo de Diana sem parecer óbvia ou histriônica. É impossível não olhar para ela em qualquer cena de Mulher Maravilha, e a beleza da atriz tem pouco ou nada a ver com isso. Nas mãos de Gadot e do roteirista Allan Heinberg, surpreendentemente um veterano de draminhas adolescentes como The O.C. e O Quinteto, a Diana do filme é excepcional por sua compaixão, sim, mas também pela coragem de defendê-la sem hesitar e pelo extraordinário poder que não tem medo de demonstrar. É uma heroína que não pede desculpas por sê-la, exatamente como seus colegas machões.

O diretor de fotografia Matthew Jensen faz talvez o trabalho mais belo do gênero de super-heróis até hoje, criando uma obra de estética iluminada, pouco afeita a atalhos visuais, que brilha ao ajudar a diretora Jenkins a criar um ícone indelével de esperança em meio a um cenário desolado. A cineasta americana de 46 anos se mostra uma verdadeira mestre de seu ofício – é quase possível sentir a dedicação e a minúcia de uma artista em pleno domínio de suas habilidades, que sabe que sua obra é importante demais para ter qualquer coisinha fora do lugar. Jenkins tentou por mais de uma década trazer o filme da Mulher Maravilha à vida, e toda essa obsessão resultou em um trabalho que é essencialmente mais pessoal, mais idiossincrático, mais visivelmente incansável, do que qualquer outro no gênero. Hollywood não queria uma mulher no comando de um arrasa-quarteirão, mas Jenkins os venceu em seus próprios termos (e ainda bem que venceu).

Como narrativa, é um severo desserviço dizer que Mulher Maravilha só expande os temas do universo cinematográfico da DC até agora. Ao invés disso, Jenkins, Heinberg e companhia elegantemente reajustam o discurso de O Homem de Aço, Batman vs Superman e Esquadrão Suicida em um contexto de emoções mais viscerais e idealismos mais elevados. Em um mundo de falsos deuses e poderes corruptíveis, a Mulher Maravilha emerge como um símbolo de empatia, força, paz e bondade, uma heroína terrivelmente humana que, nem por isso, deixa de ser uma heroína. Ao contrário do Superman de Henry Cavill, ela não é uma deusa com uma caixinha de brinquedos perigosa que não sabe o que fazer com ela – sua inicial ingenuidade não leva a uma trajetória em direção ao cinismo vicioso de seus companheiros de franquia, e sim a uma maior compreensão de seu lugar no mundo.

Nesse sentido, no universo de deuses e monstros da DC, Diana Prince é exatamente como nós – e é bom se sentir tão poderoso para mudar as coisas horrendas sobre nós mesmos (e o nosso mundo), mesmo que seja só por pouco mais de duas horas. No final das contas, o grande triunfo de Mulher Maravilha e sua diretora é conduzir a heroína para esse lugar de identificação ambígua, entre escapismo e inspiração, de onde nascem todos os ícones. Ao sair do cinema na minha sessão de Mulher Maravilha, essa era a sensação, no melhor resumo que eu posso fazer dela: eu sabia que, agora, Diana Prince era imortal.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Mulher Maravilha (Wonder Woman, EUA/China/Hong Kong, 2017)
Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Allan Heinberg
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Elena Anaya, Saïd Taghmaoui, Ewan Bremmer, Eugene Brave Rock, Lucy Davis
141 minutos

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