28 de jun de 2017

Review: A Múmia, com Tom Cruise, só quer ser medíocre – mas consegue ser muito pior

mummy

por Caio Coletti

Poucos dias após a estreia de A Múmia nos cinemas americanos, que ocorreu no último dia 09 de junho, a imprensa começou a divulgar matérias em que “fontes de dentro da produção” garantiam que o controle criativo exagerado exercido pelo astro Tom Cruise no set foi o responsável pelo desastre do filme. De certa forma, essa “tomada de rédeas” por parte de Cruise não é surpreendente – com um diretor semi-estreante (Alex Kurtzman) e o fracasso da tentativa anterior da Universal de lançar sua franquia de monstros (Dracula Untold, de 2014), o estúdio tinha bons motivos para querer que o poder estelar de Cruise fosse a âncora do filme. O problema é que, não importa o quanto carisma e crédito tenha em Hollywood, Cruise não é um cineasta, e A Múmia é tanto pior por causa disso.

Em seu coração, o roteiro original de David Koepp (Jurassic Park) guardava as boas intenções de uma aventura de horror esperta, ainda que medíocre. Raspas e restos dessa visão original sobram no filme, seja em alguns de seus visuais ou na própria construção da personagem-título, interpretada por uma ótima Sofia Boutella – a intervenção de Christopher McQuarrie (Jack Reacher) e Dylan Kussman no roteiro original de Koepp, no entanto, reportadamente serviu para dar um papel maior ao personagem de Cruise, que ganha um arco tão previsível quanto é rascunhado em traços indistintos. O filme quer vender um anti-herói na pele de Nick Morton, o soldado/contrabandista que topa com o sarcófago da princesa Ahmanet, mas não lhe dá um histórico ou dilema moral forte o bastante para carregar o filme. Ao invés disso, o personagem acaba parecendo um peso morto, arrastando-se de uma sequência de ação para a outra a caminho de um destino contra o qual ele luta muito pouco.

Kurtzman, que antes da estreia na direção fez fama escrevendo blockbusters como o primeiro Transformers (2007) e os dois primeiros filmes da nova franquia Star Trek (2009, 2013), deveria ter ficado em seu ramo de atuação original. Enquanto suas investidas no roteiro não eram exatamente alta arte, mas elaboravam os clichês de forma inteligente e divertida, no comando de uma produção Kurtzman parece totalmente perdido. Como resultado de sua direção, A Múmia tem um visual escuro e sem brilho, pouco ou nenhum senso de movimento durante as sequências de ação, e sofre de aguda falta de criatividade plástica – e enquanto tudo isso é também culpa em parte do diretor de fotografia Ben Seresin (Guerra Mundial Z), dos editores e designers de produção, é sob a vigilância de Kurtzman que o trabalho desses profissionais fez o filme desandar.

Desenhado para lançar uma franquia que costurará histórias sobre todos os monstros clássicos do estúdio (de Drácula a Frankenstein, passando por O Homem Invisível e O Médico e o Monstro), A Múmia sente o peso da responsabilidade comercial que carrega. Apesar do retorno fraco em terras americanas, o filme deve recuperar seu custo na bilheteria internacional (no momento, conta US$350 milhões ao todo de arrecadação), o que garante que mais clássicos do horror serão transportados para a era dos blockbusters interconectados inaugurada pela Marvel Studios. Seria sábio da parte da Universal aprender com o exemplo de A Múmia, e garantir mais liberdade aos seus próximos criadores para realizar uma visão criativa imperturbada por egos de estrela.

✰✰ (1,5/5)

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A Múmia (The Mummy, EUA, 2017)
Direção: Alex Kurtzman
Roteiro: David Koepp, Chrispher McQuarrie, Dylan Kussman
Elenco: Tom Cruise, Russell Crowe, Annabelle Wallis, Sofia Boutella, Jake Johnson, Courtney B. Vance
110 minutos

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