30 de jul de 2017

Review: O documentário Quem é JonBenet entende que a empatia é o traço mais humano de todos

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por Caio Coletti

O misterioso caso do assassinato de JonBenét Ramsey tem fascinado o público americano e mundial há mais de 20 anos. Uma breve contextualização: Ramsey era uma garota de apenas 6 anos, conhecida no circuito de concursos de beleza para crianças dos EUA, que foi encontrada morta em 1996 em sua própria casa, em um caso nunca solucionado. Teorias incluem a possibilidade de que os pais, Patsey e John, estivessem envolvidos, ou de que o irmão, Burke, a teria matado acidentalmente e os pais estavam encobrindo as evidências, e levantam também a possibilidade assustadora da existência de um círculo de prostituição infantil em Boulder, Colorado (EUA), onde a menina vivia com a família.

O documentário Quem é JonBenet, da diretora Kitty Green, explora todas essas possibilidades, ao mesmo tempo em que se estrutura de forma única para o gênero. Ao invés de trazer entrevistas com pessoas de fato envolvidas no caso, a diretora colocou uma chamada de elenco para um filme sobre JonBenet no jornal local, e entrevistou e reencenou momentos chaves do caso com aqueles que responderam. O resultado é uma análise profunda de temas como memória, preconceito, escolhas narrativas e a influência da mídia na nossa percepção de mundo, mas é também um testemunho de força inexplicável sobre a maior e mais delicada das qualidades humanas: a empatia.

Conforme conduz as entrevistas e encenações, Green escolhe se embrenhar não só na vida da família Ramsay como ela é contada por atores amadores e profissionais de Boulder, como também nas questões de foro pessoal que levam cada um deles a fazer certas escolhas em suas atuações. Incansável, a documentarista coloca uma lente de aumento sobre os pontos de contato das histórias desses indivíduos em frente a suas câmeras e a história da família imperfeita e incógnita que está no centro desse caso. Quem é JonBenet entende a imperfeição e a peculiaridade da condição humana que dá combustível para a fascinação em torno da morte de JonBenet, e prefere sublinhar essa fascinação do que buscar respostas inéditas ou insights baratos.

Planejado e executado à perfeição, o experimento cinematográfico de Green exige habilidade que sobra à diretora, tanto para editar a vastidão de material que com certeza conseguiu em suas entrevistas quanto para escolher os detalhes minuciosamente destacados pela fotografia. Assistida pelo editor Davis Coombe e pelo diretor de fotografia Michael Latham, Green encontra seu ponto de equilíbrio com facilidade, comandando uma progressão confiante de emoções entrelaçadas que atingem um clímax impecável. Atenção especial para o ator Dixon White, que faz teste para viver John Mark Karr, um pedófilo que confessou (falsamente) ter matado JonBenét. White mergulha na psique perturbada e nos motivos obscuros de Karr com uma vontade e fascinação que o fazem uma força da natureza – e um parceiro criativo perfeito para Green. Em meio a uma sinfonia cinematográfica de engenhosidade inegável, é um dueto de ator e diretor delicioso de se assistir.

✰✰✰✰✰ (5/5)

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Quem é JonBenet (Casting JonBenet, EUA/Austrália/China, 2017)
Direção e roteiro: Kitty Green
80 minutos

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