7 de out de 2017

Review: O que incomoda em Mãe! é o cruzamento herético entre deuses e humanos

mother

por Caio Coletti

Um dos meus melhores hábitos (os bons não são muitos, acredite) é não criar expectativas para obras artísticas. Via de regra, busco me manter calmamente afastado do furor pelo lançamento de qualquer peça de cinema, TV, música ou seja lá o que for, a fim não de manter a objetividade ou a frieza ao finalmente poder assisti-la (ou lê-la, ou ouvi-la, enfim), mas de me manter aberto à subjetividade que ela quer me passar, ao invés de julgá-la a partir daquilo que esperava dela. No entanto, ao entrar na minha sessão de Mãe!, era impossível não sentir aquela curiosidade no fundo da cabeça, reprimida pelas minhas melhores tentativas de não ceder ao hype: O que será que incomodou tanto nesse filme?

As reações ao longa de Darren Aronofsky não poderiam ser mais polêmicas: Houve quem o amou, saudando a coragem e intensidade do filme como dignas do pesadelo que se via em tela; e houve quem o odiou, cunhando as expressões de sempre (“exercício de ego vazio” e suas inúmeras variações) ou reclamando, do ponto de vista conservador, do uso de símbolos e metáforas sacras para contar uma história de violência.Tinha isso em mente quando o título rabiscado do filme apareceu em tela, seguido imediatamente de um ponto de exclamação grosseiro, quase como que zombando da controvérsia que Aronofsky sabia que seu filme ia causar. Por outro lado, quando “The End of the World” tocou enquanto os créditos subiam, no final do filme, a dúvida (“O que em Mãe! incomoda tanto?”) não existia mais.

A trama de Mãe! (não há spoilers aqui) acompanha o casal formado por Javier Bardem e Jennifer Lawrence, que vivem em uma casa ainda em construção. Ele, um escritor; ela, uma dona de casa. Subitamente, chega por lá um homem (Ed Harris), que cria uma ligação com o personagem de Bardem enquanto Lawrence protesta (educadamente, em particular, como a boa esposa suburbana) contra sua permanência na casa. Logo, junta-se a ele a esposa (Michelle Pfeiffer), e a partir daí o roteiro de Aronofsky dispara uma série tensa de acontecimentos que atingem um crescendo até a odisseia alucinante do final. Metade drama doméstico, metade filme de guerra, e inteiro alegoria, Mãe! é, como cinema, um bicho estranho, que não liga para equilíbrio tonal e não se acanha em usar truques sujos para pegar o espectador desprevenido.

No entanto, ainda não é isso que incomoda sobre Mãe!, visto que Aronofsky é um mestre em dançar na ponta dos pés ao redor da percepção do espectador. O filme não tem qualquer trilha sonora artificial perceptível (o compositor Jóhann Jóhannsson chegou a escrever temas que não foram usados no corte final), mas usa a edição e mixagem de som com maestria para inserir o espectador em um ambiente acústico à flor da pele. O diretor de fotografiaMatthew Libatique, velho parceiro de Aronofsky, mantem a iluminação natural e, sem dúvida sob instruções do cineasta, passa uma enorme parte da metragem filmando o rosto de Jennifer Lawrence em close-up, sua pele de boneca enchendo a tela. Percebendo o desafio, a estrela entrega uma atuação que não é só puramente reativa, buscando personalidade em meio ao desespero que o roteiro joga em sua direção.

Ainda melhores estão outros dois membros do elenco. Bardem parece se deliciar com a missão de retirar as camadas de seu personagem lentamente durante o filme, elaborando sem medo o egocentrismo que guia cada uma de suas decisões, e encarando cada momento em que o roteiro aumenta o volume da paródia/metáfora que representa com tanto senso de aventura quanto coerência. Extravagante na medida certa, Bardem acerta o tom difícil do filme de Aronofsky na mosca, como o grande ator que é. Enquanto isso, Mãe! pede que Michelle Pfeiffer faça justamente o contrário, colorindo ao redor de uma personagem que é em muitos sentidos unidimensional – ela encontra um tom de humor negro tão refinado que, quando ela está em cena, é difícil prestar atenção em qualquer outra coisa. 

Não é nada disso que incomoda em Mãe!, no entanto. Saindo da minha sessão, a impressão é que o que enerva e envolve tanto no filme é a forma como a história contada por Aronofsky desnuda a mitologia da sociedade ocidental de seu misticismo e encontra nela observações minutas e detalhes sórdidos do nosso egoísmo, da nossa prepotência, da nossa teimosia, do nosso equívoco ao tentar entender conceitos como amor, devoção e perdão. Mãe! olha para os deuses que criamos e acha neles a reflexão da nossa pior natureza, e da verdade que nenhum de nós quer encarar: a de que cada ato, consequência, equívoco e desastre que acontece conosco, e entre nós e o meio em que vivemos, é de nossa responsabilidade.

Por toda a sua carreira, Aronofsky transformou humanos em deuses e demônios tortos. Réquiem Para um Sonho, Fonte da Vida, O Lutador, Cisne Negro, Noé – são todos filmes sobre homens e mulheres cujas obsessões, confusões, perturbações e arrependimentos os transformam em seres saídos direto de tragédias gregas grandiosas em que reis e rainhas se digladiam em meio a temas de vingança, degradação e glória. Acontece quando Nina abre suas asas na apresentação final de Cisne Negro, ou Randy sobe nas cordas do ringue para dar seu último pulo em O Lutador, ou Noé decide se deve ou não ouvir as ordens de Deus e matar um membro de sua família, ou Sara descende à loucura com seus remédios para emagrecer enquanto delira sobre estar em um programa de auditório em Réquiem.

Há 17 anos, Darren Aronofsky transforma humanos patéticos, sujos e de caráter duvidoso em deuses e mitos. Em Mãe!, o script se inverteu, e os deuses desceram à Terra para nos mostrar que, veja só, eles são mesmo só humanos, tão gloriosamente perturbados quanto os outros do diretor. É isso que realmente incomoda em Mãe!. Ele faz acreditar, mesmo que por meras 2 horas, que não há uma história maior, mais ideal ou mais pura – que isso que temos aqui é tudo o que jamais teremos. É um filme urgente, totalmente idiossincrático, que precisa ser respeitado e ouvido mesmo que todos os nossos instintos digam que não.

✰✰✰✰✰ (5/5)

mother

Mãe! (Mother!, EUA, 2017)
Direção e roteiro: Darren Aronofsky
Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson, Jovan Adepo, Kristen Wiig
121 minutos

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